24 Maio, 2012

Deputado republicano compara imigrantes nos EUA a cachorros

Steve King

Declaração ofensiva ocorre durante tentativa do partido conservador em ganhar votos da comunidade hispânica

João Novaes, Opera Mundi

O deputado norte-americano Steve King, que já chegou a defender que as fronteiras dos EUA com o México fossem reforçadas por cercas elétricas, voltou a causar polêmica em mais um discurso no qual atacou a imigração. Congressista do Partido Republicano pelo Estado de Iowa, King disse nesta segunda-feira (21/05), em Des Moines, durante um evento de sua campanha para reeleição na Câmara, que os Estados Unidos devem escolher os imigrantes que entram no país, como “como se escolhe um cão de caça em uma matilha, na qual devemos escolher os melhores segundo as necessidades da ocasião”.

Não é a primeira vez que King comparou imigrantes a animais. Ao defender o cerco elétrico na fronteira, King justificou sua proposta dizendo que “fazemos isso com o gado o tempo todo”. A nova declaração de King ocorre na mesma semana em que o provável candidato republicano Presidência do país, Mitt Romney, inicia uma campanha para tentar ganhar votos em meio à comunidade hispânica.

No Congresso, King é vice-presidente de Imigração da Câmara de Representantes em Washington. Sua comparação de imigrantes com cachorros gerou uma série de críticas da opinião pública norte-americana e de organizações em defesa de imigrantes.”
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23 Maio, 2012

Crisis? What Crisis? - a Europa passa e eu NÃO acho graça


Raymundo Araujo Filho, Correio do Brasil

“Triste é ver ‘analistas políticos’ correndo atrás dos fatos, sem interpretá-los como eles são, mas sim a partir de seus interesses imediatos, para iludirem o Povo’.
Escaramuça, poeta e compositor popular itinerante

“Chega a ser enfadonha esta insistência em incentivar esperanças vãs em situações recorrentes em nossa história política (refiro-me à da humanidade como um todo, mas notadamente a nossa ocidental moderna), tão comum entre aqueles que analisam os fatos políticos a partir de suas próprias (vãs) esperanças ou interesses imediatos inconfessáveis, como afirmou o artista popular Escaramuça, citado na epígrafe deste artigo.

A esta altura do campeonato da luta de classes entre o mundo burguês e o mundo do trabalho, com larga vantagem para o primeiro, até acho ridículo o incessante incensar destas vitórias eleitorais de social-democratas, após período conservador da direita orgânica (tal e qual o revezamento entre Republicanos e Democratas nos EUA). São apenas "áreas de recuo" do capitalismo, para manter-se vivo, mas dando algumas migalhas para aplacar revoltas, nem sempre de origem popular, tal como restolhos sociais da classe média, defensora de seus interesses imediatos, como sempre foi, com exceções louváveis e minoritárias.

A classe média, em nome da defesa do status quo que a contempla positivamente (o tal Bem Estar Social, para ela), pode até capitanear algumas destas “revoltas”, como na Europa recentemente, sendo que na França o líder da "revolta" era o presidente da Juventude Social Democrata, portanto, de cunho capitalista - como sabemos, verdadeira inspiração do Partido Socialista Francês. Isso nos mostrando que este termo, Socialista, já foi totalmente corrompido, a meu ver pelo fato de que a maioria dos que se dizem socialistas (deixo claro que sequer admito apresentar-me como tal, tamanho o conservadorismo deste termo) persiste com a idéia de que irão navegar na “Igualdade”, ocupando (eles, é lógico) as instituições burguesas, vetor predominante do que chamamos Revolução Francesa – que, a meu ver, teve na Comuna de Paris e seu grito libertário e autonomista o único vetor verdadeiramente revolucionário (sem aspas) daquele evento histórico.

 Assim, temos na França novamente um social-democrata, ainda mais conservador do que o Jospin, derrotado pelo Sarkozy, que efetuou dois mandatos (aliás, incensado pelo “popular” Lula, em atitude ignóbil, anti-proletária e anti-povo, quando presidente do Brasil, em função de um nebuloso “acerto” na compra de caças franceses, afinal não configurado).”
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22 Maio, 2012

“A Grécia tem de sair do euro e declarar a moratória da dívida”


Para o economista grego Costas Lapavitsas, o sistema monetário comum europeu acentuou a recessão grega

João Alexandre Peschanski, Brasil de Fato

Um quarto dos trabalhadores gregos estão desempregados - um índice que atinge 50% quando considerados apenas a população economicamente ativa com menos de 25 anos, de acordo com dados oficiais. O Fundo Monetário Internacional e a União Europeia adotaram medidas para supostamente resgatar a economia grega, cujo Produto Interno Bruto (PIB) caiu quase 7% em 2011, que pioraram a situação social. Há protestos diários na capital Atenas, muitos dos quais acabam em confrontos violentos com a polícia.

Para resolver a crise econômica e social, a Grécia tem de “tomar as rédeas de seu próprio futuro”. A opinião é do economista grego Costas Lapavitsas, professor da Universidade de Londres e coordenador do grupo de economistas políticos Pesquisa sobre Dinheiro e Finanças (RMF, na sigla em inglês), que se tornou uma das principais referências acadêmicas na análise das causas e consequências da recessão global iniciada em 2007. Segundo ele, o futuro soberano da Grécia passa necessariamente pela moratória da dívida e a saída da zona do euro.

Lapavitsas sugere, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, concedida em 25 de abril, durante uma visita aos Estados Unidos para uma série de conferências sobre a crise europeia, que as políticas e instituições da zona do euro intensificaram o impacto da recessão na Grécia e no que ele chama de países periféricos do bloco, como Espanha, Portugal e Irlanda. Para sair da crise, diz Lapavitsas, a Grécia precisa adotar medidas de resgate de sua soberania nacional e de desenvolvimento industrial.

Brasil de Fato – Por que a zona do euro esteve tão vulnerável à crise imobiliária e financeira, que se iniciou nos Estados Unidos, em 2007?

Costas Lapavitsas – Essa fragilidade à crise global foi causada por fatores relacionados à estrutura interna da zona do euro. É porque a zona do euro é ela mesma problemática, porque ela criou tensões profundas dentro dela. Posso ser mais preciso: a zona do euro criou dentro dela mesma uma oposição entre um centro e uma periferia. A periferia é provavelmente a Grécia, a Espanha, o Portugal, a Irlanda; a Itália está na fronteira. A periferia se tornou periferia porque perdeu competitividade em relação ao centro, desenvolvendo enormes déficits, tanto em transações quanto no saldo comercial, o que levou a uma multiplicação de suas dívidas. Ou seja, à medida que a periferia foi perdendo poder econômico, gerou-se uma dívida, interna e externa, privada e pública. Quando a crise atinge a zona do euro, a dívida que havia sido acumulada na periferia se tornou a principal causa de sua fragilidade, colocando a zona do euro em uma situação muito problemática.

Por que esses países que se tornaram periféricos perderam competitividade?

Vale notar que não se trata de periferia e centro no sentido clássico da teoria do desenvolvimento, em que se opõem Primeiro e Terceiro Mundo. O capitalismo produz continuamente essa distinção entre periferia e centro, uma dimensão combinada de desenvolvimento desigual. A zona do euro fez a mesma coisa, de seu próprio modo, que tem a ver com a formação do euro. A moeda, usada globalmente, foi criada para competir com o dólar, oferecendo a bancos e corporações uma forma de dinheiro confiável para manter suas reservas e organizar transações. Para criar essa forma de dinheiro, os países europeus tiveram de criar um sistema para mantê-lo, que tem vários elementos. Essa variedade é um reflexo do fato de esses países serem 17 Estados. O sistema que foi criado foi pensado para estabelecer um sistema monetário comum, um banco central. Mas, aí começa o problema, há uma variedade de políticas fiscais, já que são 17 Estados, 17 classes dominantes, e, portanto, uma variedade de práticas bancárias. Apesar de haver um sistema monetário comum, há 17 tipos de bancos nacionais na zona do euro. Esse sistema com moeda comum e variedade de bancos, rigidez fiscal com limites, fez com que fosse necessário ter flexibilidade em alguma área: o mercado de trabalho. O que aconteceu então na zona do euro foi uma competição para baixar os custos de trabalho. Aí, a Alemanha ganhou, sem ter realmente um competidor no mesmo nível. A Alemanha manteve congelados os custos de trabalho por quase duas décadas, agora. Os países periféricos tiveram menos êxito; custos de trabalho congelados na Alemanha e custos da unidade de trabalho em alta em outros países os levaram a ser menos competitivos. Isso criou um abismo no mercado e os países periféricos não puderam equilibrar a perda de competitividade com desvalorização monetária ou com outras políticas econômicas, já que isso fazia parte do sistema comum.”
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21 Maio, 2012

Economistas avaliam impacto global de retrocesso na Grécia


João José Oliveira, Valor

“O maior retrocesso em toda história da unificação europeia”. Assim o embaixador Rubens Ricúpero, ex-secretário geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), que também chefiou no governo brasileiro os gabinetes de Meio Ambiente e da Economia, classifica a atual crise protagonizada pela Grécia. “É um fracasso do movimento mais ambicioso da Europa, a unificação monetária”, disse o representante permanente das Nações Unidas em Genebra e ex-presidente do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio), o hoje diretor do Curso de Economia da Faap.

Ricúpero ainda aposta na permanência da Grécia na Europa por um motivo: a Grécia precisa da Europa, e a Europa precisa da Grécia - ainda. “Desde 1982 a Alemanha não tem déficit comercial. É um país que tem uma relação da conta corrente ante o PIB maior até do que a China em termos proporcionais. A Alemanha depende muito do mundo, e por isso tem muito a sofrer se a situação degringolar por causa da Grécia”, diz Ricúpero, que vê coerência na conta feita pelo governo britânico em relação ao tamanho do que seria o impacto de uma ruptura absoluta da economia grega no mundo: US$ 1 trilhão.

Motivos existem para não descartar a baixa grega da Zona do Euro, entretanto. Rubens Ricúpero admite que “o risco efetivamente existe e está na casa dos 40%, como disse o primeiro ministro britânico David Cameron”.

Ao longo da última década, a Grécia vem Grécia distorcendo indicadores de demanda e torturando estatísticas públicas para mascarar uma economia que é mais frágil do que de fato a República Helênica é.

Depois que a crise financeira mundial foi deflagrada pelo estouro da bolha de crédito nos Estados Unidos, no fim de 2008, a oferta de crédito minguou e a ciranda grega de papéis parou de rodar.”
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20 Maio, 2012

Petróleo é poder


Paulo Metri, Correio da Cidadania

“O Pré-Sal pertence à humanidade” é a tradução do título do editorial do “The New York Times” que irá sair em um futuro não muito distante. A pregação diz que o Pré-Sal é da humanidade porque está em área do globo terrestre que não pertence a nenhum país. Logo após esta afirmação, o jornal lança o conceito de que quem chegar primeiro passa a ter a propriedade do petróleo e do gás produzidos. Estas são as teses principais do editorial, representando a opinião de fortes grupos de interesse do capitalismo internacional.

A maioria das áreas do Pré-Sal está realmente em mar internacional. Os Estados Unidos não ratificaram o tratado internacional que aceita a faixa de 12 até 200 milhas da costa como pertencente ao domínio econômico exclusivo do país, apesar de 150 nações das 190 existentes já o terem ratificado. Porém, este editorial esconderá o fato de que é muito custoso explorar o Pré-Sal sem utilizar bases logísticas no Brasil. Talvez porque esta seja uma batalha posterior.

Apesar de o editorial ser uma ficção, é bem possível que a tese descrita já esteja sendo germinada. O tema petróleo sofre manipulação da mídia do capital, devido a sua importância estratégica e valor econômico. Tenta-se convencer a pequena parcela da população mundial que está atenta aos acontecimentos sobre a atratividade das posições do capital, que, via de regra, não são benéficas à sociedade.

Usa-se de todos os métodos necessários para tal convencimento, desde o fato de salientar aspectos irrelevantes na análise, para confundir, até mentiras deslavadas. Tem-se liberdade total para criar versões substitutas dos fatos reais. Comunicadores excelentes, capazes de distorcer os fatos, criadores de verdades infundadas, além de analistas hábeis, despojados de compromissos para com a sociedade, estão sempre a serviço do capital petrolífero privado, ofuscando aspectos e valores de maior interesse para o povo brasileiro.

Como a acumulação máxima de riqueza é a única meta do capital, este vê, no negócio petróleo, uma imensa oportunidade para tal acumulação; 58% da energia comercial consumida no mundo são oriundos de petróleo e gás natural, que comprova a grande dependência da economia mundial ao petróleo. A escassez futura do petróleo está próxima, tanto que o barril se mantém acima de US$ 110, apesar do baixo crescimento da economia mundial. Além disso, não há fontes substitutivas ao petróleo, no curto prazo. Obviamente, no médio prazo, outras energias mais caras tornar-se-ão viáveis, elevando o patamar de preços das economias.

Desta forma, quem possui petróleo pode garantir às economias mundiais a fonte de energia ainda barata a que seu aparato produtor está adaptado. Pode garantir à sociedade mundial o aquecimento no inverno, o combustível para o transporte e as indústrias e, em alguns países, o combustível para a geração de eletricidade. Pode garantir também ao capitalismo internacional insumo vital para a acumulação de riqueza.”
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18 Maio, 2012

Julian Assange entrevista ativistas de direitos humanos do Oriente Médio


Os entrevistados no 4º Programa “The World Tomorrow” são Alaa Abd El-Fattah, do Egito, e Nabeel Rajab, do Bahrein

Brasil de Fato / Entrevista transcrita e traduzida pelo Coletivo Vila Vudu

No quarto programa “The World Tomorrow”, da rede RT (Russia Roday), Julian Assange entrevista dois ativistas de direitos humanos do Oriente Médio. São eles: Alaa Abd El-Fattah, escritor egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein.

Rajab foi preso, com outro ativista, logo depois dessa entrevista, no dia 5 de maio, ao voltar ao Bahrein, vindo do Líbano.

Julian Assange: A primavera árabe é a materialização dos sonhos de muitos, ou é uma fantasia impossível? Essa semana, ando na direção contrária à da mídia-empresa internacional e converso diretamente com dois líderes revolucionários.

O escritor e ativista Alaa Abd El-Fattah, que está no Cairo. Foi preso, proibido de viajar, e converteu-se em ícone da revolução traída.

E aqui, na prisão domiciliar em que vivo, em Londres, recebo a visita de Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein e uma das figuras mais importantes do levante no Bahrein.

Quero perguntar-lhes sobre as revoluções no Oriente Médio. Foram bem-sucedidas, fracassaram, foram revolução declaradas ou clandestinas? O que os motiva a continuar arriscando a própria vida?

Julian Assange: Alaa.

Alaa Abd El-Fattah: Alô! Olá.

Julian Assange: Você me vê? Aqui ao meu lado está Nabeel, do Bahrein.
Alaa Abd El-Fattah: Sim [falam em árabe]

Nabeel Rajab: Estávamos preocupados com você.

Alaa Abd El-Fattah: É um prazer encontrá-los.

Julian Assange: Você está em liberdade, mas não por muito tempo…

Alaa Abd El-Fattah: Nenhum de nós tem liberdade garantida, não é?

Julian Assange: Não, parece que não [risos]. Mas o que aconteceu nas últimas semanas? Nós convidamos você e tentamos trazê-lo…

Nabeel Rajab: Da outra vez [em que foi convidado]…

Julian Assange: … você estava na cadeia.

Nabeel Rajab: É, é verdade. Estava preso. Me obrigaram a ficar lá metade do dia. Mês passado, fui atacado e golpeado em plena rua. Há alguns meses, uns mascarados dos serviços de segurança entraram na minha casa, arrancaram-me de lá, levaram-me para lugar que não sei onde é, de olhos vendados, fui torturado e, depois, me levaram de volta para casa. Quando informei, pela minha conta no Twitter, que viria encontrar Julian Assange, falar com ele num programa de televisão, à noite minha casa foi cercada por quase 100 policiais, armados de metralhadoras. Até que se deram conta de que eu não estava em casa. Disseram à minha família que eu teria de me apresentar à polícia hoje, até as 4h. Bom… Estou aqui.

Julian Assange: Hoje, às 4h, você está aqui.

Nabeel Rajab: Já tinha vindo. Recebi a mensagem na noite passada e acho… Já estou acostumado.

Julian Assange: O que vai fazer?

Nabeel Rajab: Voltar. Quer dizer, tenho de enfrentar essas coisas. Não é a primeira vez. A luta é essa. Liberdade é isso. A democracia pela qual lutamos é essa, custa caro, tem seu preço e temos de pagar o preço. O preço pode ser muito alto… Tantos já pagaram tão caro, tantos continuam a pagar tão caro, no Bahrein. Estou disposto a pagar pelas mudanças pelas quais lutamos.

Julian Assange: E, Alaa, você está onde? Está livre? Retiraram as acusações contra você?

Alaa Abd El-Fattah: Não, não retiraram acusação alguma. Ainda estou esperando o julgamento. As investigações continuam. Estou proibido de sair do país. Estou sendo acusado de assassinatos, de destruir propriedade pública, principalmente veículos blindados, tanques de combate, de roubar armas militares, de formar quadrilhas para promover atividades terroristas. Dizem que ataquei dois pelotões, roubei armas e matei um soldado…

Julian Assange: Rapazinho muito travesso, hein?!

Alaa Abd El-Fattah: Sim, e verdadeiro Super-Homem! Faço coisas inacreditáveis. Eu, só com as mãos, destruo tanques blindados. [risos] E há testemunhas da acusação que juram que me viram em dois lugares distantes, ao mesmo tempo. Mas, como ainda estão investigando, com certeza ainda descobrirão novas façanhas dos meus superpoderes. É assombroso. Mas tenho ótima reputação, na cidade e na prisão: lá, o pessoal é acusado de roubar carros, motocicletas… Mas eu sou o único que rouba tanques blindados! [risos]

Julian Assange: Na sua opinião, como vai acabar isso?

Alaa Abd El-Fattah: Não sei se estão mesmo interessados em mim, ou se a ideia é usar os processos e os julgamentos como ferramenta legal contra todos os ativistas. Parece que não basta espancar manifestantes e ativistas, não basta matar gente nas passeatas. A verdade é que, quando se ouve falar de assassinatos seletivos, de vítimas predefinidas para morrer, aqueles assassinados sempre são pessoas muito importantes, mas pouco conhecidas do público. O problema deles somos nós, os ativistas mais conhecidos, os nomes que todos ouvem nas ruas: o que fazer conosco? Então, acho que estão tentando inventar uma farsa de legalidade, uma farsa de legitimidade, essas investigações e audiências e tal, que usam contra nós. Até agora, fracassaram sempre e perdem tempo. O meu caso continua a ser investigado, e, enquanto investigam, eu já sou declarado culpado de todos os crimes. É possível que, com o tempo, consigam arruinar minha reputação. Agora, por exemplo, divulgaram que apoio os homossexuais. É mais uma ‘acusação’ que, como o roubo de tanques blindados, mais melhora do que agride a minha boa reputação na praça.”
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17 Maio, 2012

“A Grécia tem de sair do euro e declarar a moratória da dívida”


Para o economista grego Costas Lapavitsas, o sistema monetário comum europeu acentuou a recessão grega

João Alexandre Peschanski, Brasil de Fato

Um quarto dos trabalhadores gregos estão desempregados - um índice que atinge 50% quando considerados apenas a população economicamente ativa com menos de 25 anos, de acordo com dados oficiais. O Fundo Monetário Internacional e a União Europeia adotaram medidas para supostamente resgatar a economia grega, cujo Produto Interno Bruto (PIB) caiu quase 7% em 2011, que pioraram a situação social. Há protestos diários na capital Atenas, muitos dos quais acabam em confrontos violentos com a polícia.

Para resolver a crise econômica e social, a Grécia tem de “tomar as rédeas de seu próprio futuro”. A opinião é do economista grego Costas Lapavitsas, professor da Universidade de Londres e coordenador do grupo de economistas políticos Pesquisa sobre Dinheiro e Finanças (RMF, na sigla em inglês), que se tornou uma das principais referências acadêmicas na análise das causas e consequências da recessão global iniciada em 2007. Segundo ele, o futuro soberano da Grécia passa necessariamente pela moratória da dívida e a saída da zona do euro.

Lapavitsas sugere, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, concedida em 25 de abril, durante uma visita aos Estados Unidos para uma série de conferências sobre a crise europeia, que as políticas e instituições da zona do euro intensificaram o impacto da recessão na Grécia e no que ele chama de países periféricos do bloco, como Espanha, Portugal e Irlanda. Para sair da crise, diz Lapavitsas, a Grécia precisa adotar medidas de resgate de sua soberania nacional e de desenvolvimento industrial.

Brasil de Fato – Por que a zona do euro esteve tão vulnerável à crise imobiliária e financeira, que se iniciou nos Estados Unidos, em 2007? 

Costas Lapavitsas – Essa fragilidade à crise global foi causada por fatores relacionados à estrutura interna da zona do euro. É porque a zona do euro é ela mesma problemática, porque ela criou tensões profundas dentro dela. Posso ser mais preciso: a zona do euro criou dentro dela mesma uma oposição entre um centro e uma periferia. A periferia é provavelmente a Grécia, a Espanha, o Portugal, a Irlanda; a Itália está na fronteira. A periferia se tornou periferia porque perdeu competitividade em relação ao centro, desenvolvendo enormes déficits, tanto em transações quanto no saldo comercial, o que levou a uma multiplicação de suas dívidas. Ou seja, à medida que a periferia foi perdendo poder econômico, gerou-se uma dívida, interna e externa, privada e pública. Quando a crise atinge a zona do euro, a dívida que havia sido acumulada na periferia se tornou a principal causa de sua fragilidade, colocando a zona do euro em uma situação muito problemática.

Por que esses países que se tornaram periféricos perderam competitividade?

Vale notar que não se trata de periferia e centro no sentido clássico da teoria do desenvolvimento, em que se opõem Primeiro e Terceiro Mundo. O capitalismo produz continuamente essa distinção entre periferia e centro, uma dimensão combinada de desenvolvimento desigual. A zona do euro fez a mesma coisa, de seu próprio modo, que tem a ver com a formação do euro. A moeda, usada globalmente, foi criada para competir com o dólar, oferecendo a bancos e corporações uma forma de dinheiro confiável para manter suas reservas e organizar transações. Para criar essa forma de dinheiro, os países europeus tiveram de criar um sistema para mantê-lo, que tem vários elementos. Essa variedade é um reflexo do fato de esses países serem 17 Estados. O sistema que foi criado foi pensado para estabelecer um sistema monetário comum, um banco central. Mas, aí começa o problema, há uma variedade de políticas fiscais, já que são 17 Estados, 17 classes dominantes, e, portanto, uma variedade de práticas bancárias. Apesar de haver um sistema monetário comum, há 17 tipos de bancos nacionais na zona do euro. Esse sistema com moeda comum e variedade de bancos, rigidez fiscal com limites, fez com que fosse necessário ter flexibilidade em alguma área: o mercado de trabalho. O que aconteceu então na zona do euro foi uma competição para baixar os custos de trabalho. Aí, a Alemanha ganhou, sem ter realmente um competidor no mesmo nível. A Alemanha manteve congelados os custos de trabalho por quase duas décadas, agora. Os países periféricos tiveram menos êxito; custos de trabalho congelados na Alemanha e custos da unidade de trabalho em alta em outros países os levaram a ser menos competitivos. Isso criou um abismo no mercado e os países periféricos não puderam equilibrar a perda de competitividade com desvalorização monetária ou com outras políticas econômicas, já que isso fazia parte do sistema comum.”
Foto: Reprodução
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16 Maio, 2012

Os novos neonazistas da Alemanha


Renate Krieger, CartaCapital

“Durante seis meses, um informante que trabalhava para a polícia do Estado federado da Baviera (sul da Alemanha) montou um estande de kebab em Nuremberg para tentar esclarecer misteriosas mortes de pequenos empresários estrangeiros. A partir deste informante, a polícia descobriu no fim de 2011 que os crimes eram de autoria de uma célula neonazista. A informação foi divulgada na quinta-feira 10 por Walter Kimmel, promotor geral de Nuremberg, durante sessão da comissão de investigação da chamada “Célula de Zwickau” no Bundestag, a Câmara Baixa do Parlamento alemão.

A existência dessa célula formada por três neonazistas e também conhecida como o grupo NSU (Nationalsozialistischer Untegrund, ou Nacional-Socialismo Clandestino, em tradução livre) chocou algumas regiões da Alemanha.

O NSU seria responsável pela morte de nove microempresários estrangeiros (oito turcos e um grego) entre 2000 e 2005, e existiu durante quase 13 anos sem que as ligações entre os assassinatos cometidos fossem descobertas. Foi precisamente a negligência em relação ao terror de direita a responsável pelo espanto em toda a Alemanha. O promotor federal do país, Harald Range, descreveu a existência do NSU como “o 11 de setembro alemão”.

Para Michael Sturm, conselheiro na Mobim (sigla em alemão para Centro de Aconselhamento contra o Extremismo de Direita e para a Democracia) em Münster, no oeste da Alemanha, o problema do NSU não é novo e não veio à tona com o grupo. “Nos últimos 20 anos, esse tipo de situação foi recorrente, a exemplo dos ataques incendiários de Solingen (oeste) no início dos anos 1990. Ou então casos de violência que aconteceram em Rostock (nordeste) em 1992, diante de residências de estrangeiros. Foram incidentes que aconteceram diante dos olhos de todos”, lembra.”
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15 Maio, 2012

A volta (e os novos desafios) dos indignados

Madri, 12-M: Centenas de milhares de pessoas nas ruas, como em 80 outras cidades na Espanha, e 50 pelo resto do mundo

Manuel Castells | Tradução: Antonio Martins / Outras Palavras

“Mas… não estava morto e enterrado o 15-M? Não havia degenerado em violência de rua, para a qual temos a polícia? Não tinham se convertido, os mais sensatos, numa associação legal Democracia Real Já!, devidamente registrada no ministério do Interior? Que resta destes movimento espontâneo, maciço e criativo que contou, durante meses, com apoio moral de três em cada quatro cidadãos? 
Logo saberemos. Nas redes sociais já circula o chamado para uma manifestação local e global, em 12 de maio. Reúne milhares de pessoas em todo o mundo, com o lema “Unidos por uma mudança global”. Reativa os protestos que mobilizaram milhões, em 951 cidades e 82 países, em 15 de outubro de 2011. E este movimento rizomático, com múltiplos nós mutantes e autônomos, que vive nas redes sociais da internet e nas pessoas, mantém o fogo da indignação, enquanto as coisas permaneçam como estão.

Aparece, desaparece e reaparece no espaço público para reafirmar sua existência e formular um projeto de mudança social. Por ser movimento sem chefes, baseado na horizontalidade e na participação, sem normas nem programa, supera qualquer circunstância. Não se cria nem se destrói: transforma-se. Sobrevive ao próprio perigo mais comum dos movimentos sociais: a autodestruição por disputas internas.

Certas práticas usuais da esquerda não afetam o 15-M. Quando, há alguns dias, Fabio Gandara (um veternao do movimento) e outras pessoas impacientaram-se e criaram uma associação DRY [Democracia Real Ya], para atuar em nome do movimento, soou o alarme nas redes sociais. Tal decisão, tomada de forma pouco clara e minoritária, segundo parece à maioria dos nós locais do movimento, contrariava os princípios de democracia assembleária sobre os quais se apóia o 15-M. Mas depois de um momento de irritação inicial, adotou-se a atitude de que cada um faz o que quer e não cai o mundo. A declaração do movimento de Valência, que se opôs em 25 abril à ideia da associação era assinada por “Democracia Real Já (o objetivo, não a marca)”, porque não há marca, ninguém pode se apropriar do que não tem proprietário. O 15-M é das pessoas que saem às ruas e debatem na rede, a cada momento: cada um com suas razões, reivindicações, ideais e manias. Por isso, não é nem será um partido ou algo parecido. Também não há problema (exceto se houver trols no meio) se pessoas de boa fé decidirem seguir outro caminho, por objetivos amplamente compartilhados. É uma rede aberta, não uma burocracia fechada.”
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