Isaac Rosa , Outras Palavras
Já podem dormir tranquilos os gregos,
porque a Europa não abandonará o país. Preferirá mantê-lo pendurado no abismo,
agarrado pelos cabelos e sempre a poucos minutos da quebra total. Mas não
permitirá que despenque, porque a Grécia cumpre hoje um papel essencial na
Europa. A imagem de um país quebrado, asfixiado, submetido a chantagem,
despojado de sua soberania, com a população sofrendo apertos sucessivos e as
ruas incendiadas, tem diversas serventias.
Os governantes podem apoiar-se no caso
grego para nos convencer de que precisamos nos comportar, fazer as “lições de
casa” e pagar a dívida – do contrário, vejam os gregos onde acabaram, por terem
cabeça fraca. “Observem o que se passa na Grécia agora mesmo”, dizia Sarkozy
aos franceses segunda-feira, e completava: “Quem gostaria que a França
estivesse na situação da Grécia?”
Os apóstolos do choque também tiram
proveito da situação grega: é um laboratório em condições reais, com os
cidadãos como cobaias, para testar até onde se pode liquidar, empobrecer e
humilhar um país sem que estourem as costuras. Sim, queimaram edifícios,
atiraram pedras, mas a vida segue. A Grécia está sob ruído e fumaça, mas ainda
não passou por um levante social. Por isso, seguiremos apertando, para ver até
onde aguenta.”
Tradução: Antonio Martins
Artigo Completo, ::Aqui::



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