“Fronteiras contra imigração são uma mina de ouro”, diz antropólogo iraniano


Shahram Khosravi explica a lógica das deportações, que andam de mãos dadas com a corrupção e o racismo

Opera Mundi

Hoje o iraniano Shahram Khosravi é antropólogo, professor da Universidade de Estocolmo. Mas há 30 anos ele era um imigrante sem documentos, pagando contrabandistas para ajudá-lo a fugir de sua terra natal. Ele peregrinou, deixou os dólares da família com policiais corruptos para escapar do serviço militar obrigatório, que o levaria ao front da guerra Irã-Iraque

Khosravi transformou sua “rica” experiência em livro. ‘Illegal Traveller’ – An Auto-Ethnography of Borders (‘Viajante Ilegal’ – Uma autoetnografia de fronteiras, US$ 27, Amazon.com) é um guia de sobrevivência pelas linhas porosas que dividem o atlas global. “Fronteiras são símbolos e rituais de uma comunidade. Ter controle é mostrar a identidade e legitimidade do Estado”, disse o autor ao Opera Mundi.

Em meio à disputa de deportações entre Brasil e Espanha, que levanta suspiros patrióticos em ambos os lados, sem falar no limbo jurídico em que caíram imigrantes haitianos, que aguardam no Acre e em Rondônia documentação para trabalhar, Khosravi vê tudo como um grande “espetáculo” que prioriza a soberania de um país e se esquece das pessoas.

São palavras de um homem que viveu como “deportável” anos a fio até encontrar asilo político na Suécia, onde vive hoje. “Uma pessoa sem documentos não sabe o que vai acontecer amanhã. Tem medo até de se apaixonar”, contou. Veja a entrevista.

* * *

O sr. é contra fronteiras?
É preciso voltar na história e rever o assunto. Criamos nações-Estado há menos de 200 anos. Não tínhamos esse tipo de fronteiras. É algo criado e, por isso, podemos mudá-las. Não deu certo. Pessoas morrem todos os dias, vivem na miséria por causa das fronteiras que temos hoje. Você poderia dizer que um sistema sem fronteiras é totalmente utópico. Mas se voltarmos no tempo até a década de 1960, por exemplo, ninguém acreditaria se dissesse que um dia não haveria mais controle de fronteiras entre França e Alemanha. Pois hoje não existe mais esse controle. As pessoas atravessam para lá e para cá. E se voltasse 30 anos no tempo, ninguém acreditaria se dissesse que não haveria mais fronteiras entre países do leste europeu e o resto da Europa. Mas hoje as pessoas podem viajar. Quando dizemos que um sistema sem fronteiras é possível, tem gente que ri da nossa cara. Mas nunca se sabe. Quem sabe daqui a 50 anos não teremos mais essas fronteiras que temos hoje?


O sr. é um crítico do modo que a mídia em geral retrata os contrabandistas de pessoas. Por quê?
Acho que muitos jornalistas e políticos têm idéias bastante simplistas sobre contrabandistas de pessoas. É preciso lembrar que eles são produto de uma política dura de fronteiras. Quanto mais fechadas, mais geram contrabandistas.


Pode dar um exemplo?
Nos anos 1980 era muito mais fácil obter visto ou asilo em países europeus. E também era mais fácil ir à Europa ilegalmente. Muita gente era ajudada por primos, irmãos, e foram para a França, Suécia e outros países. Hoje é muito difícil ir para a Europa. É preciso de ajuda profissional de gente que gerencie esse tipo de imigração. É o que digo. Essas políticas criaram um mercado lucrativo para grupos criminosos. Mas é preciso ressaltar que, quando se fala em contrabandistas de pessoas, há muitos atores em questão. Há o agricultor na fronteira entre Irã e Turquia que ajuda pessoas a cruzar por 50 dólares. Ao mesmo tempo há o grupo criminoso que coloca pessoas em uma barca perigosa e manda pelo Mar Mediterrâneo e não está nem aí se elas vão morrer ou não. Todos são chamados de contrabandistas e, por isso, precisamos ter cuidado com essa terminologia. Fato é que tudo isso é parte da criminalização da migração, que cria uma cultura de desconfiança. Todos acreditam que pessoas que foram contrabandeadas não são de confiança, assim como candidatos a asilo, que não são considerados legítimos porque tiveram de pagar para chegar onde chegaram.  Há dois anos um famoso político sueco disse: “deveríamos deportar todos os candidatos a asilo que foram contrabandeados para a Suécia”. Isso é contra todas as convenções de refugiados ou de direitos humanos. Se você é candidato a asilo, não importa se você chegou legal ou ilegalmente.”
Entrevista Completa, ::Aqui::

Comentários

Leia Mais..