O crime de opinar



Eliakim Araujo, Direto da Redação

No sábado passado, uma estrela do futebol americano, Jovan Belcher (25 anos), da equipe do Chiefs, de Kansas City, matou sua namorada Kasandra Perkins (22 anos), dirigiu até o estacionamento do time em que joga e suicidou-se.

O assassinato/suicídio chocou a opinião pública dos Estados Unidos. Primeiro, por ele ser atleta de uma equipe da liga do futebol americano, o esporte mais popular no país. Segundo, porque ele a namorada acabaram de ter um bebê (com três meses agora) e pelas fotos postadas na internet parecia que viviam uma grande paixão.

No último domingo, um dos mais famosos e respeitados jornalistas esportivos da TV dos EUA, Bob Costas, que desde 1980 é o âncora oficial dos jogos olímpicos, usou noventa segundos do seu comentário da NBC, para ligar o episódio à liberdade com que as pessoas compram e portam armas nos Estados Unidos, autorizados pela famosa Emenda número 2 da Constituição que “garante o direito de homens adultos possuirem suas próprias armas, indepedente do arsenal do Estado”.


Citando o colunista Jason Whitlock, Costas terminou seu comentário com a frase: “Se Jovan Belcher não possuísse uma arma, ele e Kasandra Perkins estariam vivos hoje”.

Jason Whitlock, citado por Costas, escreveu em sua coluna: “Nossa cultura atual de armas garante que mais e mais disputas domésticas vão acabar em tragédias e que mais meninos adolescentes vão acabar ensanguentados e mortos em confrontos em lojas de conveniência por motivos bobos. Revólveres não aumentam a nossa segurança. Eles exacerbam nossas discussões e nos levam a abraçar o confronto, em vez de evitá-lo”.

A decisão de Bob Costas de usar o episódio do assassinato/suicídio para defender vigorosamente o controle de armas provocou a indignação de centenas de telespectadores, revoltados com o fato de um comentarista esportivo usar seu espaço para fazer um comentário político.

A reação veio através de mensagens no twitter e na mídia conservadora dos EUA, capitaneada pela Fox News, a rede de notícias do famigerado Rupert Murdoch.  Nesta segunda-feira,  os comentaristas da emissora pediam a cabeça de Costas, alegando ele que ultrapassou os limites da ética ao usar um espaço de entretenimento para assumir uma posição a favor do controle de armas.

Na verdade, por trás dessa indignação, está um dos pontos mais controvertidos da disputa democratas versus republicanos: o controle de armas. Os casos de matança em série já viraram rotina nos EUA e ninguém se levanta contra a facilidade com que qualquer um tem acesso a verdadeiros arsenais de armas e munições.  O controle ou a proibição (para alguns)  é tema super delicado que mexe com interesses poderosos,  a indústria de armas à frente.

A mídia extremista, felizmente minoria nos EUA, defende com unhas e dentes o dispositivo constitucional que garante ao cidadão o direito de ter uma arma para se proteger e proteger sua família. Um preceito inserido na Constituição  no século XVIII, quando o Estado não estava aparelhado para proteger os cidadãos, especialmente em locais longínquos e pouco habitados. Mas ele não se justifica nos dias atuais.

Os tempos da diligência acabaram, mas a mídia extremista dos EUA, com o apoio da poderosa NRA (Associação Nacional do Rifle),  ignorando a neurose e os desajustes da atual sociedade, que leva ao cometimento de massacres horrorosos, segue defendendo o direito à posse e ao porte de armas livremente. Daí, a pressão contra o jornalista Bob Costas.

Mas, se por um lado Costas ganhou a antipatia da direita raivosa americana, por outro conquistou o coração dos verdadeiros democratas que lutam por uma sociedade ordeira e pacífica.

Estou com o Bob Costas. Como formador de opinião, ele tem todo o direito de expressar a sua, seja em que tipo de programa, sobretudo quando está em jogo a segurança dos seres humanos.”

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