Segurança de Israel não será obtida pela via militar, diz cineasta brasileira

A cineasta brasileira Julia Bacha
'Julia Bacha é diretora de organização que promove o diálogo na região. Assim como ela, outras vozes da resistência pacífica buscam espaço.

Giovana Sanchez, G1

Após um mês de conflito entre Israel e o grupo palestino Hamas na Faixa de Gaza, quase 2 mil palestinos e 67 israelenses mortos e as esperanças de um cessar-fogo derrubadas desde a última rodada de negociações no Egito, vozes do movimento que prega a não-violência tentam organizar novas formas de luta. Boicotes, marchas pacíficas e desobediência civil são algumas das estratégias usadas pelos grupos que acreditam que a via militar não é a solução para esse - e nenhum outro conflito.

"A pior coisa que Israel pode fazer para combater a popularidade do Hamas é o que está fazendo. Os ataques fazem com que ganhe popularidade. Não só isso, fazem grupos mais extremistas ganharem popularidade. A segurança de Israel não pode ser obtida de forma militar. A segurança de Israel tem que ser obtida através da criação de esperança na população palestina, de que eles vão ter seus direitos humanos respeitados. Sim, você vai correr risco a médio prazo. Mas a longo prazo você vai manter sua própria sobrevivência como sociedade", disse ao G1 a cineasta brasileira Julia Bacha. Julia mora em Nova York e é diretora de criação da organização Just Vision, que documenta atividades pacíficas de israelenses e palestinos pelo fim da ocupação [veja a palestra de Julia Bacha sobre não-violência].

Seu filme "Budrus", vencedor de 18 prêmios internacionais (inclusive um deles em Jerusalém), documentou o movimento de resistência no vilarejo de mesmo nome contra a construção de um muro que separa Israel do território palestino na Cisjordânia. Por meio de estratégias não-violentas, os moradores conseguiram evitar que a obra passasse pelo meio da cidade palestina.

Mulheres de Budrus protestando no vilarejo em 2004 (Foto: Divulgação/Courtesy of Just Vision)

“Neste momento, muitos grupos, tanto na Cisjordânia quanto dentro de Israel, grupos liderados por jovens palestinos muito comprometidos com a resistência pacífica, estão discutindo uma marcha, um protesto pacífico, em direção a Gaza, para tentar forçar Israel a levantar o bloqueio”, disse Julia, que citou a semelhança da caminhada com a “marcha do sal” realizada por Mahatma Gandhi em 1930 contra a proibição da coroa britânica à produção de sal pela Índia. “O comércio não é livre dentro de Gaza, os pescadores não têm direito a pescar em seu próprio oceano. Quando você nasce, quando você morre, quando você casa, quando você divorcia, para qualquer ato é preciso pedir permissão e ter o selo de aprovação do governo israelense, que controla todos os aspectos da vida dos palestinos dentro de Gaza.”

Boicotes e frotas de ajuda

Uma das ações que já existem para forçar o fim do bloqueio a Gaza é a iniciativa “Boicote, Desinvestimento e Sanções”, criada após um apelo feito por grupos civis palestinos para pressionar Israel a acabar com o cerco. Segundo a assessora de imprensa da organização israelense Jewish Voice for Peace (‘Vozes Judaicas pela Paz’), Naomi Dann, estratégias como essa estão ganhando força na Europa e nos EUA.

“O movimento de resistência não-violento tem tido uma longa tradição sem muito reconhecimento na Palestina. Na última década, o discurso de não-violência ficou mais forte, particularmente com o trabalho de comitês de resistência populares em vilarejos da Cisjordânia que estão lutando contra a construção de muros em suas terras. A comunidade de Bil'in é uma das líderes nesse movimento, como pode ser visto no filme 'Cinco Câmeras quebradas' [2011]”, explicou Naomi ao G1, por e-mail.

Outro movimento de resistência tem acontecido com alguns poucos jovens israelenses que se recusam a servir os quatro anos obrigatórios do serviço militar de seu país.

No caso dos palestinos, ter que transformar a raiva, a tristeza e a frustração em não-violência é uma das maiores dificuldades do movimento, segundo Julia. Outra importante questão é unir ativistas dos dois territórios palestinos que estão separados - Faixa de Gaza e Cisjordânia. “O que dificulta muito é que na Cisjordânia atualmente muitos desses palestinos que trabalham pacificamente em vários vilarejos não têm acesso para sair da Cisjordânia, porque Israel não permite. Porém os palestinos que são cidadãos de Israel têm acesso. Se você for analisar o que mais mudou antes e após Gaza? É esse engajamento dos palestinos que são cidadãos de Israel”, explica Julia.

As marchas pacíficas, no entanto, podem virar violentas. Quando um grande número de pessoas desobedece uma ordem, há possibilidade de confronto armado, como ocorreu em 2010, quando militares de Israel interceptaram um navio de comboio que tentava furar o bloqueio para levar por mar ajuda humanitária à Gaza e mataram ao menos nove pessoas.

“Aí Israel tem duas opções. Uma é abrir o bloqueio [a Gaza], e nesse caso não haverá mais conflito. E a outra é resistir e fazer como os britânicos fizeram na Índia e atirar nas pessoas", diz Julia. Se isso acontecer, diz ela, a expectativa é que a comunidade internacional pressione para que uma mudança ocorra. "Essa é a estratégia da resistência pacífica. Você não usa a violência, mas você sabe que a violência pode ser usada contra você. A esperança é de que, se a mídia estiver presente e documentar o que está acontecendo, a comunidade internacional vai agir.”
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Comentários: