Absinto: a 'fada verde' que virou a musa dos grandes artistas

É difícil achar outra bebida que teve impacto cultural tão grande entre artistas




A bebida foi a musa inspiradora de vários artistas – de Édouard Manet, que chocou o Salão de Paris de 1859 com seu "O Bebedor de Absinto", a Pablo Picasso, que fez a escultura com o nome da bebida.

Durante a Belle Époque, a "fée verte" (ou "fada verde", como era conhecida, por sua cor marcante) era a bebida da moda para escritores e artistas em Paris. As cinco horas da tarde ficaram conhecidas em Paris como "Hora Verde", que era quando o consumo do absinto chegava ao seu auge.

O absinto forjava e destruía amizades, e criava visões e estados etéreos que invadiam obras artísticas. A bebida foi importante na criação de vários movimentos artísticos: simbolismo, surrealismo, modernismo, impressionismo, pós-impressionismo e cubismo.

Uma análise mais detalhada da química do absinto antigo revela alguns de seus segredos. O sabor licoroso vinha do boldo ou do anis. Mas a erva do absinto também contém tujona, que possui um efeito levemente alucinógeno.

Mas na verdade esse efeito provavelmente é exagerado pela mitologia que se criou em torno da bebida. Seu poderoso efeito no cérebro provavelmente era causado pelo alto teor alcoolico. Ainda assim, a mística do absinto sobrevive até hoje.

Musa na garrafa

Rimbaud, Baudelaire, Paul Verlaine, Emile Zola, Alfred Jarry e Oscar Wilde eram notórios entusiastas do absinto. Jarry tomava puro; Baudelaire misturava com láudano e ópio; Rimbaud combinava com haxixe. Eles descreveram em diários, cartas e obras o efeito viciante no processo produtivo.

No poema "Poison", do volume de 1857 de "As Flores do Mal", Baudelaire colocava o absinto acima do vinho e do ópio como droga de preferência.
"Nenhum deles se iguala ao veneno que se acumula nos olhos e que me mostra minha pobre alma ao reverso, meus sonhos ansiam em beber nessas piscinas verdes de distorção", escreveu.

"O Bebedor de Absinto" é uma das obras famosas de Edouard Manet

Rimbaud via a poesia como algo "alquímico, uma forma de mudar a realidade", e para ele o absinto era uma ferramenta artística. A desorientação causada pela bebida era o que fazia o poeta ter uma visão pródiga do mundo.

Em um de seus contos, Guy de Maupassant descreve um funcionário de um cartório que bebe tanto absinto em uma festa de um pintor que ele acaba dançando valsa com uma cadeira e desabando ao chão. No dia seguinte, ele esquece tudo e acorda nu em uma cama de um estranho.

Essa fama nociva do absinto levou ao seu declínio. Alguns atribuem a bebida à derrocada e morte de artistas como Baudelaire, Jarry, Paul Verlaine e Alfred de Musset. Há quem diga que Vincent Van Gogh havia bebido absinto quando cortou fora sua orelha.

Com tantos incidentes e até mesmo assassinatos atribuídos a ela, em 1915 a bebida já havia sido banida na França, Suíça, Estados Unidos e grande parte da Europa.

Ressaca cultural

A "fada verde" desapareceu como fonte de inspiração no século 20. Acabou substituída por coquetéis como o martini, e posteriormente por drogas alucinógenas, nos anos 1960.

Mas há referências quase nostálgicas à bebida na literatura do século 20. Ernest Hemingway tomou absinto na Espanha nos anos 1920. Seu personagem Jake Barnes usa a bebida como consolo depois de perder sua amada para um toureiro em "O Sol Também se Levanta".

Em "Por Quem os Sinos Dobram", Robert Jordan tem absinto em seu cantil. Em "Morte na Tarde", Hemingway conta que parou com touradas por falta de ânimo, "exceto quando tomava três ou quatro absintos, que me inflamavam a coragem e distorciam meus reflexos".

No livro, existe até mesmo uma receita de um coquetel que leva absinto. "Coloque uma dose de absinto em uma taça de champagne. Acrescente champagne gelada até ficar com um aspecto leitoso. Beba três a cinco destes lentamente."

Hoje o absinto voltou a ser oferecido legalmente.

"Para mim, o absinto tem algo de místico, de sobrenatural, qualidades que eu gosto de ver em bebidas", diz Rosie Schaap, colunista de drinques do jornal New York Times. Mas ela recomenda moderação.

Nos círculos literários atuais, o absinto é mais parte do entretenimento do que da inspiração. Volta e meia a bebida ressurge em coquetéis de lançamento de livros de intelectuais.

A nova "encarnação cultural" da bebida é bastante diversa – ela aparece em seriados como "Mad Men", foi lançada como uma marca própria pelo cantor Marilyn Manson ("Mansinthe") e também está a venda em edição de luxo por US$ 10 mil (a vintage "Pernod Fils").

Mas hoje a bebida já não é mais uma musa, mas sim uma tentativa de resgatar uma Belle Époque que não existe mais."
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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