Leonardo DiCaprio e seus abismos


Fábio de Oliveira Ribeiro, GGN

"Em seu belo discurso na ONU em setembro deste ano, o ator norte-americano https://www.youtube.com/watch?v=vTyLSr_VCcg alerta o mundo para os efeitos da mudança climática. Segundo ele diversas catástrofes provam que o aquecimento global precisa ser combatido, caso contrário a humanidade pagará o preço.

Impossível não admirar o desempenho do cidadão preocupado Leonardo DiCaprio na ONU. O alerta que ele deu, porém, parece estar relacionado justamente ao modo de vida que ele leva. Há décadas DiCaprio cruza os ares, os continentes e os mares em aviões, barcos e carros que queima combustível fóssil. O glamour da vida que ele leva é ecologicamente destrutivo quer porque ele polui e consome produtos cuja fabricação causa poluição, quer porque ele é um paradigma, um modelo para centenas de milhões de norte-americanos, europeus, japoneses, chineses, russos, árabes e africanos que tem o mesmo padrão de renda que ele.

Se o clima está sendo modificado, se a humanidade corre realmente o risco de ficar atolada em pilhas de lixo tóxico, a responsabilidade maior não é dos ricos e sim dos pobres. Enquanto os atores milionários levam suas vidas antiecológicas e cheias de glamour, bilhões de seres humanos pobres consomem as imagens que produzidas e divulgadas pela mídia e discursos como o que Leonardo DiCaprio proferiu na ONU.

Há um evidente abismo entre os filmes e a realidade. Abismo semelhante existe entre os discursos engajados e as práticas cotidianas. O ideal representado por José Alberto Mujica Cordano, o presidente uruguaio pobre que governa honestamente em benefício dos pobres, não é a regra. Em geral a hipocrisia domina a cena artística e política. Quantos são os diplomatas da ONU que não aceitam presentes das multinacionais poluidoras, quantos deles gostam de meditar sobre ecologia enquanto são transportados por aviões que poluem a atmosfera?

O discurso do ator da ONU é semelhante ao argumento do filme Inception (2010). No filme, a função do protagonista representado por Leonardo DiCaprio é enfiar uma idéia na cabeça de um empresário. Para fazer isto ele precisa vencer várias barreiras e tem que correr vários riscos. A mensagem é simples, mas não foi criada pelo protagonista.  Dom Cobb não precisa acreditar na mensagem, basta que ele faça o destinatário da mesma recebê-la acreditando que foi seu criador.

A distância entre a vida cotidiana de DiCaprio e o discurso que ele proferiu é evidente. O desempenho dele no plenário da ONU sugere que ele pode ter adicionado uma nova cena à realidade como se esta tivesse um roteiro semelhante ao do filme Inception. Pouco antes do gran finale do filme há um conflito armado numa inóspita paisagem nevada, que poderia muito bem ficar na Rússia. Isto explica porque os EUA deslocaram centenas de tanques para a fronteira russa?

No American way of life realidade e ficção são coisas semelhantes. Há quem diga que todo norte-americana se comporta como se estivesse dentro de um filme. A pose de Leonardo DiCaprio na ONU parece evidenciar esta confusão. Mas a confusão será bem maior do que em Inception se os norte-americanos ficarem acusando os outros de serem os responsáveis pela mudança climática ou se os EUA realmente confrontar os russos."
Via Google Plus

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Revista- WMB

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