Livro revela culinária que alimentava tiranos do século 20

Hitler era vegetariano e tinha 15 mulheres para provar sua comida
'A comida pode moldar seu humor, seu corpo mas também sua visão de mundo, escrevem Victoria Clark e Melissa Scott, autoras de Dictators' Dinners: A Bad Taste Guide to Entertaining Tyrants (O jantar dos ditadores: um guia de mau gosto para entreter tiranos, em tradução livre).

 Da BBC Brasil

Nesta era de valorização da gastronomia, o livro lança luz sobre alguns dos mais cruéis ditadores do século 20, submetendo-os ao escrutínio culinário. Sem amenizar seus crimes ao humanizá-los, as autoras dizem que "a linha entre homem e monstro costuma ser muito tênue".

Ainda que elas tenham concluído que o mal feito pelos ditadores e suas ilusões de grandeza não possam ser atribuídos ao que eles comiam, "algumas pistas (sobre suas personalidades) emergiram dos alimentos".

À medida que os ditadores envelheciam, ficavam cada vez mais obcecados com a pureza de seus alimentos. O norte-coreano Kim Il-sung (1948-1994) exigia que seus grãos de arroz fossem selecionados individualmente e criou um instituto cujo único propósito era inventar formas de prolongar sua vida.

O ditador comunista da Romênia, Nicolae Ceausescu, irritava líderes estrangeiros que visitava ao levar toda sua comida consigo - a ponto de o marechal Josep Broz Tito, presidente da vizinha Iugoslávia, ficar chocado pela insistência do romeno em tomar suco de vegetais crus de canudinho e evitar qualquer tipo de comida sólida.

A vasta maioria dos ditadores tinha origem humilde e camponesa, o que significa que suas comidas favoritas tendiam a ser qualquer coisa que não Cordon Bleu.

O romeno Nicolae Ceausescu levava a própria comida ao viajar
O próprio Tito, conhecido por sua hospitalidade, adorava comer fatias de gordura de porco quente, enquanto Ceausescu - quando estava em casa - tinha uma queda por ensopado feito de um frango inteiro... inclusive pés e bico.

O católico Antonio Salazar, que governou Portugal entre 1932 e 1968, amava sardinhas, que o recordavam de sua infância pobre, quando dividia um único peixe com seu irmão.

Sistemas digestivos

Alguns dos nomes mais infames do livro - Adolf Hitler, Mao Tsé-Tung e Benito Mussolini - descobriram que suas enormes responsabilidades tinham um grande efeito em seus sistemas digestivos.
A flatulência crônica de Hitler pode estar na origem de seu vegetarianismo e de sua permissão, a um médico charlatão chamado Theodore Morrell, que o receitasse até 28 remédios diferentes. Um deles era feito do extrato de fezes de camponeses búlgaros.
Em contrapartida, o líbio Muamar Khadafi, também famoso por sua flatulência, não parece ter sofrido muito com o problema. Já Mussolini, em plena Segunda Guerra Mundial, foi examinado por um médico nazista, que disse que sua constipação intestinal estava em estágio perigoso.

Mao, um apaixonado por carnes, disse certa vez, em uma carta a um camarada: "Eu como muito e excreto muito". Muito tempo depois, em uma visita à antiga URSS para encontrar-se com Stálin, ele descobriu, para sua ira, que não conseguia excretar - o tipo de privada que ele usava, agachado, não existia em Moscou.

E Stálin promovia jantares, com deliciosas iguarias georgianas, que se tornavam verdadeiros jogos de poder. Duravam horas - das 23h às 5h da manhã, por exemplo - e se tornavam uma refinada forma de tortura graças à participação obrigatória em competições de bebedeira, cantorias e danças.

O excesso de bebida e as provocações cruéis dos jantares certa vez deixaram convidados como seu sucessor Nikita Khruschov uma pilha de nervos urinando nas calças. O iugoslavo Tito só conseguia acompanhar o ritmo da bebedeira vomitando em seu casaco.

Ferdinand e Imelda Marcos pareciam desfrutar de um jogo de poder um pouco menos brutal que o de Stálin: Imelda certa vez ordenou que todo o comando do Exército das Filipinas se vestissem de mulher para uma das festas de aniversário de seu marido.

Provadores de comida

Vegetariano, Hitler aparentemente conversava com seus companheiros de mesa sobre uma visita a um abatedouro ucraniano, dando detalhes que impediam que seus convidados carnívoros terminassem a refeição.

Saddam teve um de seus provadores de comida morto pelo filho, Uray
É difícil imaginar Jean Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, Idi Amin, de Uganda, e Francisco Nguema, da Guiné Equatorial - sobre os quais recaiam fortes suspeitas de canibalismo - ficassem chocados com uma conversa do tipo.

Um ex-cozinheiro de Bokassa chegou a citar uma receita de corpo humano recheado com arroz e flambado em gim.

Obviamente que provadores de comida eram muito valorizados entre os mais cruéis e paranóicos ditadores abordados no livro. Hitler tinha uma equipe de 15 mulheres para provar sua comida durante os anos da guerra - nada era servido em sua mesa até que as meninas tivessem sobrevivido 45 minutos após comer.

O filho delinquente de Saddam Hussein, Uday, caiu em desgraça perante o pai ao matar um dos provadores de comida dele. Nicolae Ceausescu nunca viajava sem um oficial de segurança de alto escalão que também era químico, equipado com um laboratório móvel de análise de comida.

No fim das contas, é claro, nem todos os provadores, os químicos e as exigências do mundo foram capazes de salvar esses homens. Todos morreram - muitos deles de forma violenta."
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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