Evelyn Nesbit: A primeira supermodelo da História

Evelyn Nesbit se tornou famosa há mais de um século nos Estados Unidos e revolucionou a vida cultural da época




Uma simples modelo se torna "super" não só quando fica famosa em todo o mundo, mas também quando passa, de alguma maneira, a representar uma era.

Todas as décadas têm a sua supermodelo, da endiabrada magrela de minissaia Twiggy, nos anos 60, à peculiar Cara Delevigne, sucesso hoje.

Mas o fenômeno é muito anterior. Foi no início do século 20 que surgiu a primeira supermodelo do mundo: Evelyn Nesbit, uma graciosa ruiva da Filadélfia, foi a mais requisitada na Era Dourada dos Estados Unidos.

Sua vida foi tumultuada e sua fama chegou ao ápice quando ela foi envolvida como pivô de um assassinato e participou do que foi chamado "o julgamento do século".

Entre dois mundos

Nesbit personificou aquela época de várias maneiras. O fim do século 19 foi um período glamouroso de rápido crescimento econômico nos Estados Unidos, mas também foi uma época de considerável pobreza, com a chegada de muitos imigrantes europeus de origem humilde.

Nesbit viveu nesses dois mundos. Vinha de uma família modesta de raízes escocesas e irlandesas que se estabeleceu em Tarentum, na Pensilvânia. Depois que seu pai morreu, deixando inúmeras dívidas, sua mãe teve dificuldades em sustentar a família.

Para biógrafa, Nesbit personificava a garota do 'Sonho Americano'

Naquela época, as pessoas viviam com um pé na formal era vitoriana e outro nos permissivos anos 20: a jovem Evelyn vinha de uma família "respeitável" e, aos 14 anos, começou a posar para artistas – de roupa –, como uma maneira de ajudar a família com as despesas.

Quando chegou a Nova York, em 1900, sua ascensão foi meteórica. Mas ela também aterrissava em um mundo completamente diferente.

James Carroll Beckwith, cujo principal marchand era John Jacob Astor, "adotou-a" e a apresentou para artistas e ilustradores. Nesbit logo se tornou a modelo mais requisitada da cidade.

Ela serviu de inspiração para inúmeras obras de arte, como a famosa escultura Inocência, de George Grey Barnard (hoje exposta no Museu Metropolitan de Nova York), e o quadro Mulheres: A Eterna Questão (1905), de Charles Dana Gibson.

Era também um rosto popular nas capas de várias revistas, entre elas as já badaladas Vanity Fair e Harper’s Bazaar.

Seu rosto jovem e de linhas suaves tornou-se onipresente. Ela posava fantasiada – de ninfa, cigana, deusa grega, gueixa -, em imagens que não eram abertamente sensuais, mas que tinham algo de pin-up que contribuiu para a popularidade e a fama de Nesbit.

Moda e Broadway

Os ensaios de moda estavam começando a surgir e, quando Nesbit se aventurou nessa seara, seu sucesso foi instantâneo.

As fotografias se popularizaram e tomaram o lugar das ilustrações. Nesbit era um nome que ajudava a vender revistas e era imediatamente reconhecida pelo público.

Não demorou para ela ser contratada como corista no espetáculo Florodora, um sucesso da Broadway em 1901.

Nesbit passou a ser a garota da vez e aparecia frequentemente em colunas sociais e em jornais de fofoca. O próximo passo foi ter um papel de destaque na peça The Wild Rose, também na Broadway.

Assim como suas sucessoras no mundo das supermodelos, Nesbit se tornou um ícone de sua época e personalizava perfeitamente os paradoxos daquele momento.

A escritora Paula Uruburu, autora de American Eve, uma biografia sobre Nesbit, define: "Naquela inebriante primeira década do século 20, Evelyn Nesbit era a Garota do Sonho Americano, cuja vida refletia o clima intoxicante, ousado e acelerado da época".

Para a autora, a modelo "encarnava todos os impulsos contraditórios da Era Dourada". "Às vezes, ela parecia representar a sentimentalidade vitoriana, mas seu sorriso enfeitiçador sugeria algo proibitivo".

Percalços da fama

Para especialistas, uma supermodelo representa uma era, como Cara Delevigne
Em seus dias de "Garota Florodora", Nesbit conheceu o arquiteto e socialite nova-iorquino Stanford White, cujo escritório foi o responsável por alguns dos prédios e monumentos mais icônicos da cidade, como o arco do Washington Square e a joalheria Tiffany’s.

Inicialmente, White era uma figura quase paterna na vida da jovem Nesbit. Mas logo eles se tornaram amantes e ela passou a receber dele presentes caros e extravagantes, além de um luxuoso apartamento.

Foi depois do fim do namoro de um ano e com Nesbit recém-casada com o milionário Harry K. Thaw que tudo pareceu sair dos trilhos para a supermodelo.

Enciumado e "defendendo a honra de sua mulher", Thaw se aproximou de White durante um concerto e o matou com tiros à queima-roupa.

Nesbit foi a testemunha-estrela em um julgamento tão cheio de revelações surpreendentes sobre os relacionamentos com esses homens (supostamente abusivos com ela) que um grupo ligado a uma igreja tentou impedir a imprensa de noticiar os detalhes mais picantes.

Evelyn passou a ser chamada de "a garota do balanço de veludo vermelho", em referência a um brinquedo instalado em seu apartamento.

Por causa da imensa atenção atraída pelo julgamento, o júri teve de ser isolado – a primeira vez na história judicial americana que esse tipo de restrição teve de ser adotada.

Thaw foi condenado ao encarceramento perpétuo em um hospital para criminais com doenças mentais.

"Tragicamente, com a mesma velocidade com que foi catapultada para a fama, a primeira supermodelo, símbolo sexual e celebridade genuína dos Estados Unidos se tornou vítima da mesma cultura que a criou e a consumiu", afirma Uruburu.

Legado póstumo

Ainda assim, como toda pessoa digna de ser chamada de "super", Nesbit conseguiu refazer sua vida como mãe, como atriz de cinema mudo e de teatro e como autora de dois livros de memórias.

Junto com as obras de arte e fotografias de Nesbit que ainda existem hoje, foram feitos poemas e peças sobre ela, além do filme The Girl in the Red Velvet Swing (de 1955) e o livro Na Época do Ragtime, de E.L. Doctorow, que foi adaptado para o cinema em 1981.

Mesmo mais de um século depois, ela ainda fascina os americanos. Na série do canal de TV HBO Boardwalk Empire: O Império do Contrabando, a personagem Gillian é baseada em Nesbit.

Seu legado continua vivo e provavelmente se manterá – quem sabe até por mais tempo do que o de supermodelos que seguiram seus passos."
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Comentários: