Novo método para classificação de países acaba com conceito de 'emergentes'

Investidores já estão usando outros métodos para classificar países, como grau de investimento, disse Marber
"A classificação que agrupa países como "desenvolvidos" e "emergentes" está ultrapassada? E quando um país finalmente deixa de ser emergente?

BBC Brasil  

Para alguns economistas, esta avaliação não é só antiga como é simplista demais. Peter Marber, chefe de investimento para mercados emergentes da consultoria Loomis, Sayles & Company, criou uma nova avaliação, que divide países em 10 grupos diferentes após a análise de uma série de dados.

"Esta classificação (em desenvolvidos e emergentes) não está apenas desatualizada, mas é uma caracterização simplista. O mundo é muito mais segmentado do que preto e branco... Tem vários tons de cinza", disse ele à BBC Brasil.

O grupo 10 reúne os países que mais pontuaram. Quanto mais perto do topo, mais desenvolvido o país. O Brasil está na categoria 6, junto com Rússia e África do Sul. Os três países integram o bloco Brics de países emergentes.

Estados Unidos, China e Índia ─ os dois últimos também integrantes do Brics ─ teriam seus próprios grupos, já que, segundo o critério, não podem ser comparados a nenhum outro país.


Como funciona?

O método consistiu na avaliação de 100 países, desenvolvidos e emergentes. Cada um desses países recebeu notas em nove itens, que avaliaram diversos indicadores em três áreas diferentes: fatores econômicos, financeiros e sociais.

Para mensurar o desenvolvimento financeiro, avaliaram-se dados referentes à nota de crédito do país, à moeda e ao tamanho do mercado acionário como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) ─ para se perceber quão desenvolvido e importante o mercado de ações é.

Brasil melhorou na comparação com 2003, subindo do grupo 4 para o 6, segundo estudo

Na questão econômica, levou-se em conta o tamanho da população, o PIB per capita e competitividade, que incluiu avaliações sobre infraestrutura, mercado de trabalho e produtividade.

Em relação aos indicadores sociais, foram analisados o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que avalia educação, saúde e bem-estar de países; o Índice da Economia do Conhecimento (IEC) do Banco Mundial, e uma mistura de indicadores de liberdades civis e direitos políticos.

Os países foram, então, divididos em 10 "clusters" ─ ou grupos ─ a partir dos resultados desta avaliação. Assim, foram agrupados países estatisticamente parecidos.

Foram analisados dados do final de 2003 e do final de 2013 para que o desempenho dos países fosse comparado.

Quais foram os resultados?

Os países integrantes do grupo 1 foram aqueles que receberam as menores notas ─ ou seja, estão mais sujeitos a riscos ou são menos desenvolvidos. Já os do grupo 10 registraram as melhores avaliações.

Nos dados de 2013, o grupo 10 reuniu 17 países desenvolvidos, entre eles Austrália, França, Alemanha, Japão e Reino Unido. No grupo 1, foram incluídos Bangladesh, Nigéria e Paquistão.

O Brasil ocupou o grupo 6, com Colômbia, Indonésia, Malásia, México, Filipinas, Rússia, África do Sul, Tailândia e Turquia.

Eis as "surpresas": o estudo excluiu cinco economias dos 10 grupos, notadamente as duas maiores.

Estados Unidos, China, Índia, Hong Kong e Catar foram considerados "casos únicos", disse Marber, em seus próprios "clusters", por ser impossível compará-los com os demais.

Estudo disse que EUA não podem ser comparados a nenhum outro país, devido a grande população e riqueza

China teria seu próprio grupo devido à grande população do país

Por que isso? Os Estados Unidos, devido à grande população e riqueza, que não permite que o país seja comparado com nenhum outro, explicou Marber.

A China, devido à grande população. A Índia, também pela grande população, mas, devido às diferenças com a China, os países não podem ser comparados.
Hong Kong, pela combinação de riqueza, desenvolvimento financeiro e pequena população, e o Catar, devido a riqueza e pequena população.

Seriam estas exceções uma deficiência do estudo? "Não", diz Marber. "O que a gente está dizendo é que não há outros países que se pareçam estatisticamente com eles. E, na verdade, este é exatamente o ponto."

Hong Kong também teria seu único grupo, pela combinação de desenvolvimento financeiro e pequena população

Índia também ficou em categoria separada, por não poder ser comparada aos demais países

Catar também foi excluído dos grupos principais, devido a riqueza do país e pequena população
"Porque você está tentando dizer: não compare tudo com tudo. Tente comparar semelhantes. E a verdade é que você não pode comparar estatisticamente estes cinco países."

Outra surpresa: Chile, Coreia do Sul e Taiwan, países considerados emergentes, foram classificados no grupo 2, próximos ao grupo mais desenvolvido, e à frente de Portugal e Espanha, por exemplo, tradicionalmente considerados desenvolvidos.

Quais as conclusões?

Na comparação 2003-2013, o estudo conclui que o mundo parece estar "convergindo": os "clusters" de 5 a 10 agruparam 56 países em 2013, e 46 em 2003.

O Brasil, por exemplo, avançou do grupo 4 para o grupo 6, junto com Indonésia, México e Rússia. Chipre, Grécia e Portugal caíram do grupo 9 para o 7 e a Espanha saiu do "cluster" 1 para o 3.

Os Emirados Árabes Unidos, país rico do Oriente Médio, passou do grupo 8 para o 4, segundo a análise de dados

Também caíram Kuwait e Emirados Árabes Unidos, países ricos do Oriente Médio, que passaram do grupo 8 para o 4.

"A crença convencional e o que você vê é bem diferente do que os dados apresentam", afirmou Marber para explicar as "surpresas".

Então, quando um país finalmente emerge? Esta parece uma pergunta sem resposta. "Há uma continuidade de desenvolvimento. É uma corrida sem linha de chegada. Não para", disse Marber.

"Como os países estão se desenvolvendo e para onde eles estão indo é uma incógnita. E o objetivo sempre muda. Então ter uma visão estática de países não faz nenhum sentido."

"E também a visão de que uma vez você chegou lá, você não pode piorar, ou que outros países não podem ser aproximar, também é um erro bobo."

Seria o fim da classificação 'desenvolvido e emergente'?

Classificações sofrem mudanças ao longo dos tempos ─ países emergentes já foram chamados de "em desenvolvimento" ou "terceiro mundo."

A atual avaliação de "desenvolvido" e "emergente" é criticada não só pela simplicidade mas devido aos critérios pelos quais são feitas - um país é considerado "desenvolvido" apenas por questões financeiras, ou índices sociais também devem ser levados em conta?

Ainda é cedo para dizer que o modelo atual será substituído por algum outro, mas já há um movimento para o uso de outras avaliações, disse Marber.

"Há o uso maior em setores do mercado do uso da nota de crédito ─ grau de investimento ou não. O que já uma boa distinção. É uma distinção de qualidade. E se você analisar a metodologia de países é uma abordagem multidimensional."
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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