Um vídeo viral mostra como a Rota trata jovens negros — e a farsa dos programas policiais


Marcos Sacramento, DCM

Tem um vídeo circulando na internet que mostra a rotina de uma equipe da Rota, batalhão de elite da Polícia Militar de São Paulo. A gravação é parte de uma episódio do programa Alerta Policial, produzido por um tal Canal Itu. A julgar por um episódio disponível no Youtube, o programa está mais para relações públicas do que para jornalismo.

O vídeo dá uma boa noção de como jovens pobres e negros são tratados em abordagens corriqueiras, muitas vezes nas mãos de policiais que se acham onipotentes e ignoram a lei e procedimentos operacionais.

Na primeira cena, os policiais saltam da viatura e abordam três rapazes. O policial que parece ser o chefe da guarnição pergunta a um deles:

“Mão na cabeça. Preso já bacana? Já foi preso?”. Diante da negativa, pergunta o que ele tem “de menor”, possivelmente se referindo a crimes cometidos quando era menor de idade.

“Não tenho nada”, responde o jovem.

O PM, que não carrega identificação, insiste na pergunta.

“Você tem o quê de menor? O papo vai ser na comédia? Se for nós vamos para a caminhada diferente”.

O policial teima em perguntar se o jovem tem já foi detido.

“Você foi para a delegacia por causa de quê”?

“Nunca fui para a delegacia não, senhor”, responde o rapaz.

Em seguida ele pega o celular do abordado e começa a vasculhar o telefone, desprezando o direito constitucional à intimidade assegurado a todo cidadão brasileiro. Pergunta o modelo e o valor do aparelho. Ao descobrir que custa 700 reais, pergunta se o rapaz trabalha e qual o salário dele.

Quando ouve que o jovem recebe 700 reais de salário, o policial fica impressionado e questiona como ele pode ter um celular do mesmo valor.
“Ganha 700 e pagou 700 reais no celular?”

O rapaz respondeu o óbvio: “Estou pagando ainda na prestação, cartão do meu tio. Comprei pela internet”.

O PM mais um vez pergunta se ele tem um boletim de ocorrência e novamente ouve um não como resposta.

Na abordagem seguinte, a jovens que estavam batendo papo em frente às suas casas, o tratamento foi parecido. O PM perguntava várias vezes, em tom ameaçador, se os jovens tinham passagem na polícia ou processos nos tempos em que eram menores de idade.

Nos dois casos, eram rapazes de periferia, a maioria deles negros. Será que o valentão da Rota iria abordar sem motivo um jovem branco no bairro mais rico da cidade, vasculhar o celular e questionar como ele teria adquirido?

Não, certamente não. No vídeo há uma situação em que um casal, ambos brancos, são abordados enquanto namoravam no carro. Dá para perceber a diferença de tratamento em relação ao rapazes de pele mais escura. Apesar de ouvirem um sermão, nenhum dos dois precisou responder se tinha passagem pela polícia. Nem precisaram sair do carro.

Após a primeira abordagem, aquela do telefone, o chefe da guarnição comentou a ocorrência:

“Três indivíduos, a atitude deles. Eles deram uma segurada quando viram a gente e resolvemos abordar. A princípio não tinham nada mas ficou claro pelo nosso levantamento que um deles pertence ao crime, não estava fazendo nada agora, tem que ser liberado, mas o pessoal está envolvido no crime, de alguma forma”.

Um policial experiente, já com cabelos grisalhos, não explica à reportagem do programa qual indício ligaria um dos abordados à criminalidade. É assim, movidos por fatores subjetivos, o chamado “tirocínio policial”, que muitos policiais fazem seus trabalhos, tornando sofrida a vida de quem é pobre, preto, de periferia e não tem a sorte de estar sendo filmado.

Abaixo, o programa editado:

Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Comentários: