A presença de Obama


Por Daniel Afonso da Silva, GGN -

As atrocidades em Louisiana, Minnesota e Dallas levaram o presidente Obama a pronunciar seus melhores discursos e a promover suas melhores aparições de seus mandatos. Poucas autoridades políticas norte-americanas dispõem de maior propriedade para discutir o caráter racial da violência policial nos Estados Unidos e poucos chefes de estado em qualquer parte do mundo ousaram ir tão longe nessa discussão nos últimos cinquenta anos.

Numa frase de efeito carregada de calculado comedimento, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos afirmou na terça-feira, 12/07, na homenagem aos policiais mortos em Dallas, que ninguém e nenhuma instituição são inocentes frente ao racismo e à discriminação. E, num complemento, considerou que, malgrado os avanços na matéria preconceito desde as conquistas de direitos civis em seu país, o peso da escravidão e da segregação são marcas insofismáveis na consciência de todos.1

Em corajosa aparição na emissão National conversationThe president and the people, promovido pela rede ABC News, na quinta-feira, 14/07, com a presença de familiares dos jovens negros e dos policiais assassinados, ele lembraria que o espírito de unidade nacional, racial e social, pode emergir de tragédias.2

As tragédias de Louisiana, Minnesota e Dallas não foram as primeiras nem as últimas dos Estados Unidos. Mas que sirvam de lição para a redução da virulência das vindouras.

O núcleo do problema comunitário nos Estados Unidos não é recente tampouco novidade. Os redutos afro-americanos no país são os menos assistidos por serviços básicos de saúde, educação e justiça e são, concomitantemente, os mais assolados pelo fluxo contínuo de drogas, armas e impunidade.

Faltam-lhes, reconhece o presidente, estado com recursos e investimentos.
Um dos lemas mais recorrentes da reivindicação comunitária afro-americana é justamente “no justice, no peace”. Esse “no peace” que acaba levando pessoas como Micah Johnson – sniper de Dallas – a querer “fazer justiça” com seus próprios meios.

Essa tensão, arraigada no coração da sociedade norte-americana, revela o quão profundo e perene segue o sofrimento desse povo.

Enquanto o presidente Obama discursava na terça-feira, 12/07, em Dallas, tentando contemporizar esse sofrimento, o senador Bernie Sanders endossava seu apoio à candidatura Hillary Clinton. Quando ele participava da emissão da ABC News, tentando persuadir seus concidadãos a perseverar na superação coletiva da dor, informes de sondagens presidenciais indicavam que Donald J. Trump e Hillary Clinton estavam tecnicamente empatados na corrida rumo à Casa Branca, mas que o magnata dispõe de maiores vantagens comparativas para desbancar a candidata democrata.

Muitos norte-americanos – inclusive em comunidades afro-americanas – estão muitíssimo frustrados com tudo que viveram nos últimos oito anos sob a presidência Obama. Por isso, cogitam votar em Donald J. Trump. Eles querem “A future to believe in” – lema da campanha de Bernie Sanders – e não acreditam que Hillary Clinton seja a sua melhor portadora.

Da era Obama, o senso de correção e presença talvez sejam as únicas qualidades louváveis e inquestionáveis. Nos momentos mais controversos da história recente país – onde os incidentes de Louisiana, Minnesota e Dallas estão claramente inscritos –, o presidente sempre expressou o que existe de mais invejável nos homens de estado: temperança e comedimento.

Donald J. Trump possui noções de presença, mas, caso vire presidente dos Estados Unidos, que ao menos se esforce para incorporar o tino de correção, temperança e comedimento do presidente Obama para, assim, não quebrar muitos pratos.

Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 Comentários: