Argentina: seis meses de mudanças, mas para pior


Por Laura Vales, para o Página/12 -

A pobreza voltou a crescer, tomando em conta os números dos meses de maio e junho. Segundo o último informe do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) chega a 33,91%, uma diferença importante em comparação ao registrado em novembro do ano passado – um mês antes da vitória de Mauricio Macri nas eleições presidenciais – quando estava em 19,82%. A violenta queda das condições de vida, resultado do aumento dos preços e da perda de postos de trabalho foi mais acentuada na região da Grande Buenos Aires, onde chega a 36,31% da população, segundo o estudo. Outra região pesquisada a chamada Região Pampeana, onde o número apontado foi de 28,53%. Para fazer a medição, os investigadores tomaram a estas duas regiões que, somadas, reúnem 20 milhões de pessoas – portanto, embora não seja uma medição nacional, é bastante significativa, incluindo as províncias com maior população do país.

Em seus pontos principais, a pesquisa do CEPA – centro estudos dirigido pelo especialista em economia política Hernán Letcher, dirigente da FpV (Frente para a Vitória, coalizão kirchnerista), descreve que:

– Após a abrupta queda das condições de vida registrada entre novembro de 2015 e janeiro de 2016, causada pela desvalorização do peso e os efeitos do aumento dos preços, e que afetou especialmente a população mais pobre, a deterioração social continuou de forma menos acelerada, porém constante mês após mês.

– Os aumentos salariais alcançados pelos sindicatos nas negociações paritárias tiveram um reflexo direto na situação dos setores vulneráveis da sociedade, já que moderaram seu avanço.

– No caso da Grande Buenos Aires, que é onde se concentra a maior quantidade de população do país, o número de pobres subiu a quase cinco milhões de pessoas.

– O nível de indigência para a mesma área também subiu – está em 8,73% – e teve um agravamento no mês de junho.

– Enquanto que em junho, na Grande Buenos Aires, a pobreza cresceu, na Região Pampeana houve uma desaceleração, porque a cesta básica das províncias que a compõem subiu menos de preço que nos arredores da capital. Significa dizer que a evolução dos preços não está sendo uniforme em todo o país.

O trabalho mediu três níveis diferentes. O nível de indigência, correspondente aos lares com renda inferior ao da cesta básica alimentária – a que, em junho, para um grupo familiar composto por dois adultos e duas crianças, foi de 5,01 mil pesos argentinos. O nível de pobreza se referiu aos lares que não chegam a ter uma cesta básica total – a que deveria chegar a 11,68 mil pesos para uma família no padrão já citado. A terceira categoria empregada foi a de pessoas em situação de vulnerabilidade, e se refere à população cuja renda supera a linha da pobreza em apenas 10%.

As duas regiões tomadas pelos investigadores cobrem 74,5% da população urbana do país. A Grande Buenos Aires reúne a Capital Federal e 24 municípios do cone urbano, enquanto que a Região Pampeana inclui o resto da província de Buenos Aires, além de outras províncias das mais populosas do país, como Córdoba, Santa Fé, Entre Rios e La Pampa.

Pobreza

“Se quando eu termine meu governo eu não reduzir a pobreza, significará que fracassei. Não há desculpas. Hoje, se sabe qual é a inflação e a pobreza. Sou um convencido de que vamos pelo caminho correto e creio que vamos a voltar a crescer”, disse o presidente Mauricio Macri, na semana passada, em uma reportagem.

Contudo, o trabalho do CEPA desmente esta afirmação.

“O aumento da pobreza na Grande Buenos Aires é significativo: de 19,82% em novembro de 2015, passamos a 29,23% em janeiro de 2016 e a 36,31% em junho”, indica o documento que apresenta o estudo para os jornalistas.

As quase cinco milhões de pessoas pobres do cone urbano da capital argentina não são necessariamente desocupadas. Um lar onde o chefe ou a chefa da família recebe um salário mínimo – que hoje é de 6,8 mil pesos argentinos – está longe de poder tirar a cabeça para fora da linha da pobreza, o que requer uma renda de pelo menos 11,68 mil pesos. Assim, o salário mínimo só serviria para evitar que uma família esteja no nível de indigência, mas não para que não seja pobre.

A mesma situação se planteia na Região Pampeana, embora lá a cesta básica total tenha um custo mais baixo, de 10,57 mil pesos, o que faz com que o índice de pobreza seja menor, de 28,53% da população.

Indigência

A média das regiões pesquisadas mostra, da mesma maneira, um aumento da indigência, que subiu a 6,80% da população em janeiro, e logo a 8,29% em junho. Os investigadores apontam que o incremento nos seis meses foi de 22%.

Na Grande Buenos Aires, ao finalizar o mandato do governo de Cristina Kirchner, a indigência chegava a 5,71%. Aumentou agora, de forma marcada, e especialmente entre novembro e janeiro, chegando a registrar um 7,15%. Logo se produziu certa estabilização, entre fevereiro e abril, mas voltou a aumentar em maio e junho, alcançando finalmente o 8,73% atual.

Por sua parte, na Região Pampeana, a medição a partir do valor da cesta básica abrange apenas o período janeiro-junho. O motivo é que os investigadores começaram a seguir os preços da região somente neste ano. Desde então, e até março, indicam que a indigência mostrou um sensível incremento, se mantendo estável desde então.

Os preços, segundo a parte metodológica do informe, são relevados em comércios informantes constituídos por 30% de supermercados e 70% de outros estabelecimentos, conforme o averiguado na pesquisa sobre o comportamento dos consumidores e na pesquisa sobre rendas e gastos familiares de 2012.

Vulneráveis

A população considerada em situação de vulnerabilidade é a que tem renda que não supera por muito a linha da pobreza. Esta faixa dos que cobram de forma apertada as suas necessidades mínimas, diante da alta volatilidade dos preços, está sujeita a drásticas mudanças em sua situação, pelo que indica o CEPA.

Na Grande Buenos Aires, houve um forte aumento no número de famílias em situação de vulnerabilidade entre novembro e janeiro, número que praticamente se duplicou. Desde então, o número tendeu a uma estabilização. Atualmente, essas pessoas representam 4,48% da população.

Se consideramos a Región Pampeana, “esta situação tem sido mais volátil”, segundo Hernán Letcher. “Do 0,69% de vulnerabilidade em janeiro, o número passo a 8,49% em abril, para logo cair a 3,83%”. A interpretação que fazem os investigadores a partir destes dados é que existe uma relação com os aumentos salariais alcançados nas negociações paritárias que foram concluídas a partir de abril, ou de quotas de acordos realizados nos primeiros meses do ano. Para o economista-chefe do CEPA, “isto mostra, de qualquer, forma, a volatilidade da renda desta parte da população que se encontra no limite da pobreza”.

Como exemplo, no quadro da evolução da população vulnerável, se vê que o setor aumentando de tamanho, chegando a um nível máximo em abril, quando se acumularam os aumentos nos preços mas os acordos paritários não haviam sido pagos ainda. A partir de então, no caso da Região Pampeana, o número de lares vulneráveis se reduziu.

Os novos dados sobre a pobreza, a indigência e a vulnerabilidade confirmam a preocupante deterioração da situação social. Se somamos as três categorias, o que se vê é que mais de 40% da população da Grande Buenos Aires está atravessando dificuldades para sustentar um piso mínimo de condições de vida. Na Região Pampeana, os afetados chegam ao 32%. A média indica que estão em condições de vulnerabilidade, pobreza ou indigência 38 de cada cem habitantes do país.

Tradução: Victor Farinelli
Via Google Plus

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