Mujica: Brasil não pode deixar o ódio germinar por divergências políticas


Por Opera Mundi

Curitiba parou na semana passada. Não havia outro assunto que não fosse a chegada de uma das mais proeminentes figuras da política internacional: José Alberto Mujica Cordano ou, simplesmente, Pepe Mujica. O atual senador e ex-presidente do Uruguai veio até a capital paranaense falar para um grupo de 3.500 pessoas que participaria do Seminário "Democracia na América Latina", promovido pelo Laboratório de Cultura Digital. Eram milhares. Jovens, em sua maioria.

A organização do evento aguardava sua chegada com ansiedade. Olhos atentos ao portão de desembarque. Muitos, se não todos, esperavam ver Mujica acompanhado de assessores ou, no mínimo, de um secretário para cuidar da agenda, bastante cheia, por sinal. Mas os que assim acreditavam, enganaram-se. Nenhuma comitiva, nenhum segurança. Pepe desceu apenas ao lado de sua companheira, a também senadora Lucía Topolansky Saavedra. Trazia uma maleta preta e uma mensagem para compartilhar com gente de todas as idades.

Enquanto caminhava pelo aeroporto, o ex-presidente despertava a atenção das pessoas. Algumas perguntavam se o senhor em questão era mesmo o político uruguaio. As fotos, claro, não poderiam faltar. Em meio a olhares admirados, mas mantenedores de certa distância, bem ao estilo curitibano, um rapaz que passava ao lado do grupo lançou: "Esse cara, sim, deveria ser o presidente do Brasil".

Mujica parecia cansado. Também pudera. A viagem durara sete horas, desde o Aeroporto de Carrasco, em Montevidéo, com escala em Guarulhos. Antes disso, havia estado em Corrientes, na Argentina.

O frio com que se deparou não chocou o casal, acostumado à sua terra natal. Mujica ensaiou uma breve aula de geografia climática, versando sobre a temperatura das capitais latino-americanas a partir da posição e altitude de cada uma. Passado o arroubo, a inevitável pergunta: "Já vamos para o hotel?".

Questionado se estava feliz em retornar ao Brasil, o palestrante foi direto ao ponto: "Ultimamente só fico feliz mesmo quando estou indo para a minha casa".
No caminho até o hotel onde se hospedaria, uma de suas preocupações era com os ritos matinais: "Aqui vocês não tomam mate? Nós tomamos toda manhã. Parece que não acordamos sem ele". Mas a maioria dos que o acompanhavam não ouvia direito. Ou não haviam tomado seu mate, ou iam embalados no meio sonho de estar ao lado de uma referência daquele tamanho.

"Mujica is my hero"
 
Difícil saber se era maior o número de flashs ou a paciência do ilustre convidado. Mujica parecia não gostar de tanta "tietagem". Se a idade também pesava, a verdade é que não acreditava mesmo que aquilo tudo fosse necessário. Confrontado com um jovem que contou ter uma camisa com seu rosto estampado sob a mensagem "Mujica is my hero", apenas balançou a cabeça negativamente. Parecia dizer: "não, não é nada disso. Não quero ser essa figura". Contudo, ser uma referência, um ícone da esquerda, não é mais uma opção. Sabedor de sua missão, Pepe Mujica abria mão do conforto e simplicidade de sua casa, na zona rural de Montevidéu, para mergulhar no ginásio do Círculo Militar do Paraná, onde enfrentaria uma ávida audiência.
Entre as opções de cardápio no jantar, optou pela eclética: gnocchi de batata doce com costelinha suína, servida num melado artesanal da serra do mar. Alguém brincou que quem senta na ponta, paga a conta. Mujica responde: "No Uruguai paga quem tem mais dinheiro". Risadas. Silêncio.

Via de regra, manteve-se o mais discreto possível, se é que isso era possível. Nas refeições que dividiu não fez nenhuma questão de ser o centro das atenções. Muito pelo contrário. O tom baixo de sua voz nas conversas reservadas contrastava com o trovão que se tornava ao falar em público e discorrer sobre lições de vida, muito mais do que sobre política propriamente dita.

Tecnoilusões

Dentre todas as peculiaridades da personalidade de Mujica, uma, em especial, chamou a atenção no diálogo inter-geracional: ele não usa celular. Ou, pelo menos, não tocou no aparelho em público durante toda a sua passagem por Curitiba. Nesses pequenos gestos talvez transmitisse uma de suas mensagens mais marcantes: um senhor de 81 anos, de pouca intimidade com os aparelhos digitais, debatia as possíveis formas de escravidão e dependência atreladas à tecnologia, com uma plateia inteiramente conectada às redes sociais. Ele foi ovacionado, inúmeras vezes.

Na contramão da enxurrada de imagens, selfies e posts, Mujica se mostrava cansado de superficialidade e insistia na lição de que é preciso buscar mais profundidade na vida. Em entrevista à equipe de cobertura do evento, irritou-se com uma pergunta sobre o avanço do neoliberalismo na América Latina. "Você poderia ser mais criativa, todos me perguntam isso". Para ele, que enxerga a História antes como processo do que como retrato, é impossível tratar certas questões em uma reportagem "com tom de revista frívola". Foi assim que se recusou a falar sobre democracia representativa. "Não é que eu seja antipático, mas é que é preciso respeitar o pensamento", defendeu.

Simpático e incisivo, despojado e ranzinza. Ele mesmo é a contradição e a harmonia com seu discurso, uma figura de "carne y hueso". A todo o momento, uma surpresa. Mais do que referenciado por seu mandato na presidência, Pepe Mujica impressiona pela sua humildade e simplicidade em tempos tão plásticos e movidos à base de glamour político. É isso, possivelmente, que faz com que levas de jovens acudam para escutar as palavras dessa figura convicta em sua humanidade falível e assustada com tanta cultura capitalista.

Ao seu lado, sempre, Lucia Topolansky atendia a todos com igual solicitude. Como dissera seu próprio companheiro, o importante é chegar ao final da vida e reconhecer que ela não foi inútil. Se alguém poderá dizer isso, no crepúsculo de sua existência, certamente, serão Mujica e Topolansky.

Com as mesmas roupas e a indefectível cuia de chimarrão, ambos deixaram Curitiba no silêncio profundo em que chegaram. Lucía com seu sorriso acolhedor e Pepe com seu olhar de devassa, perspicaz e cansado, como quem esconde mais do que revela. Ou como quem se compadece da pergunta que deixa no ar: "Que tempo vocês têm para amar?".

"Toco y me voy" con Mujica

Desrespeitando um pouquinho sua postura que preza pela profundidade, seria possível pinçar das conversas com o senador um ping-pong com frações de respostas. Seria algo mais ou menos assim:

Importância da educação: "Sou menos radical do que Nelson Mandela. A educação é fundamental, mas não podemos colocar na conta da educação todos os erros da política. Apesar disso, ela é fundamental para garantir a tolerância".

Sobre a descrença dos jovens na política: "O homem é um animal político, já dizia Aristóteles. Mas, no mundo da mercadoria, tudo é um negócio, e se propaga a ideia de que na vida é preciso juntar dinheiro e ser rico. Então se toma a política como um caminho para se chegar a riqueza. A política é a carreira da dignidade e nela deve-se viver como vive a maioria do povo e não como a minoria aristocrática. Mas nunca irão se esgotar as contradições".

Sobre o atual momento político do Brasil: "A conta pendente do povo brasileiro é não permitir que o ódio germine por divergências políticas".

Momento histórico por qual passa a democracia: "Ah, por favor, a História da humanidade não teve início na Revolução Francesa! Tudo é um processo. Nós temos que nos dar conta que essa é uma luta permanente de mudança e que vai nos custar a nossa existência e levar toda a nossa vida.

Sobre o excesso de fotografias a que foi submetido: "Tire esse objetivo infame da minha frente".

Estamos atrasados? "Se estivéssemos na Alemanha já teríamos perdido o trem."
Via Google Plus

About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
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