Chineses ironizam “galinho Trump”, mas sabem que ele bica


Por Fernando Brito, Tijolaço -

O jornal Global Times, publicação semi-estatal da China, que há havia jogado duro com o presidente eleito dos Estados Unidos dias atrás, publicou no final do ano um novo texto desafiador – e irônico – contra Donald Trump, usando como mote uma estátua-caricatura erguida num shopping.

Diz algo que é evidente, embora os analistas pouco destaquem: não há registro de tamanho enfrentamento interno de um presidente eleito nos níveis que Trump tem da mídia e do “enterro dos ossos” da administração Obama, que confronta abertamente a legitimidade de Trump, inclusive com atitudes graves de política externa, como a expulsão de diplomatas que Vladimir Putin, espertamente, recusou-se a retaliar.

A mim, o que tudo isso revela é que não haverá suavidade na transição de poder nos EUA e isso tem a capacidade de fazer chacoalhar o mundo e sua economia. Aquela história de que “o ano só começa depois do Carnaval”, que já não valia muito para o lado de lá, não vai ter em 2017.
E vai nos pegar, literamente, na praia.

A ascensão do galinho Trump representa
perda de soft power pelos Estados Unidos

Su Tan, no Global Times

A menos de um mês do início do Ano do Galo chinês e de o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, tomar posse, ele fez uma aparição festiva na China. Recentemente, em Taiyuan, capital da província de Shanxi, no norte da China, foi erguida uma estátua de galo gigante com penteado à la Trump e minúsculos gestos de mão na frente de um shopping local.

Muitos internautas dentro e fora da China ficaram surpresos com o galo “bonito” e “hilário”. Um usuário do Twitter de Nova York ainda sugeriu que a China desse uma réplica do galo como símbolo de amizade na cerimônia de posse de Trump e que fosse colocada no gramado da Casa Branca.

Uma vez que a “réplica” de galo certamente vai se tornar popular, como todos produtos associados a Trump, uma série de réplicas será comercializada no futuro, com algumas réplicas já sendo vendidas, de acordo com a CNN, no Taobao (shopping online chinês).

Em novembro, uma foto de um faisão com um penteado semelhante ao de Trump tornou-se viral na China. Na verdade, não são só os chineses que gostam de se divertir com o magnata do setor imobiliário que se tornou estrela de TV. Várias pessoas ao redor do mundo encontraram uma variedade de plantas e animais que se parecem com o bilionário, especialmente o seu infame penteado, incluindo milho, um pimentão cortado ao meio, um cão e uma avestruz.

É bastante incomum que um presidente eleito dos Estados Unidos seja tão frequentemente e amplamente ridicularizado, com pessoas focando sua candidatura no mundo inteiro desde o início. Ninguém parece capaz de dizer que parte da retórica e dos atos do empresário indisciplinado e franco pode ser levada a sério e ninguém, nem mesmo o mais inteligente e experiente analista político, pode dizer com certeza o que o imprevisível presidente eleito fará no primeiro ano no cargo.

O surgimento de Trump sugere que haverá uma enorme queda no famoso soft power dos EUA, para preocupação de muitos membros do governo e congressistas dos EUA. Os EUA sempre se vangloriaram de oferecer condições para que todos possam tornar real o sonho americano, e permaneceram abertos para o mundo.

Mas, infelizmente, o presidente eleito mostra-se hostil à imigração, aos direitos das mulheres e a responsabilidades internacionais, e espera-se que leve ao fechamento do país.

Como Shashi Tharoor, ex-subsecretário-geral da ONU, escreveu em um artigo intitulado “O fim do soft power americano?”, a vitória de Trump “expôs e encorajou tendências que o mundo nunca associou aos EUA: xenofobia, misoginia, pessimismo e egoísmo”.

Joseph Nye cunhou o conceito de “soft power” para descrever a capacidade de um país para atrair e cooptar de maneiras não coercitivas. Mas como os EUA tendem a se apresentar cada vez mais como divididos, isolados e imprevisíveis sob a presidência de Trump, talvez a única coisa atraente e brilhante para o mundo seja o poder de zombar do excêntrico e bombástico presidente.

PS. A dica e a tradução são obra do meu sempre atento amigo Hayle Gadelha.
Via Google Plus

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