Trump e as fantasias rasgadas do “one world, one future”


Por Fernando Brito, Tijolaço

A reação da imprensa – a nossa, aqui, mixuruca  e a do mundo –  ao fato de Donald Trump não ter afinado o tom no seu discurso de posse, ontem,  é bem expressa nessa foto do jornal espanhol La Vanguardia, de Barcelona.

Trump está sendo tratado, como é exemplo a análise hoje de Clóvis Rossi, na Folha, como pouco mais ou menos um neo-Hitler.

Trump é autoritário, racista e defensor da supremacia americana, de fato “uber alles”, como frisa Rossi.

Há, porém, uma diferença e um cuidado.

Comecemos por este: Trump pode e quase que certamente será um terremoto das bem azeitadas relações financeiras do mundo.

Não é, como muitos dizem para “tranquililizar”, pouco problemático nas relações comerciais e de imigração.  A empresa brasileira que mais pode sentir os efeitos do protecionismo anunciado por Trump é a Embraer, por conta de sua exportação para o mercado americano. E, em matéria dos “cucarachos” que Trump odeia, ficamos bem para trás dos mexicanos e dos países da América Central e do norte da América do Sul.

O problema que Trump traz ao Brasil é exatamente a diferença: o nazismo cresceu numa Alemanha humilhada pelo Tratado de Versalhes.

E no “Tratado de Versalhes” da globalização, o vencedor são os próprios Estados Unidos, ou pelo menos a camada financeira e corporações industriais, bem como os seus entornos de prestadores de serviços, inclusive na área de ciência e tecnologia.

Um Iphone fabricado na China ou no restante da Ásia custa muito pouco, talvez 5 ou 10% do seu valor final.

O salário médio de um trabalhador envolvido na linha de montagem de um produto da Apple é o equivalente a US$ 1.78 por hora, e os trabalhadores pagam o equivalente a US$ 17,50 por mês, para ficar em um dormitório da empresa, dormindo entre 6 e 8 horas. As refeições não estão inclusas e custam cerca de US$ 0,70 para cada turno de trabalho. Os trabalhadores recebem uma pausa de duas horas para alimentação, mas muitos deles utilizam esse intervalo para dormir.

A diferença, afora as redes de comercialização distribuídas pelo mundo, é o ganho corporativo, todo ou quase todo ele carreado para os EUA e, de lá, retornando ao mundo inteiro como aplicações financeiras, via bancos, fundos e outras ferramentas de drenagem das riquezas locais dos demais países.

A América rural e operária fica de fora deste butim e foi ela que elegeu Trump, como é a ela que Trump diz que vai devolver o poder dos “políticos”.

Meu sempre professor Nílson Lage, no facebook, estranha que uma frase tão simples como a dita ontem por Trump em seu discurso de posse – “É direito de todas as nações colocar seus próprios interesses em primeiro lugar” – provoque tanta polêmica.

Talvez porque, ao contrário do que seria do gosto dos que dominam o mundo – revele cruamente uma realidade que fica oculta sob a ideia de que os capitais não têm pátria.

Tem, e ela é o centro do mundo, mas nem todos de lá, apenas seus donos.
Tão onipotentes que desdenham do poder de Trump, confiando que vão “amansar a fera”.

Mas Trump parece ser a brutalidade em estado puro e recoloca em evidência a farsa de que temos um só mundo e um só futuro.
Via Google Plus

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