Os grandes vitoriosos da Copa são os refugiados


por Lúcia Helena Issa, Brasil 247 -

Como muitos de vocês, que acompanham meu trabalho como escritora há bastante tempo sabem, sou descendente de uma mistura bastante rara, de franceses com árabes. Sim, tenho um sobrenome francês ( Sigaud) e nasci em uma das das famílias mais tradicionais do Brasil , sobrinha neta de D. Sigaud, o bispo e um dos fundadores da TFP, Tradição, Família e Propriedade (Jesus!). E, pelo lado paterno, sou neta de árabes (sobrenome Issa). Decidi usar apenas o sobrenome e lutar, desde a época em que eu morava em Roma e comecei a viajar pelo Oriente Médio, pelos direitos das mulheres e crianças refugiadas no mundo todo, pela tolerância religiosa, pela diversidade.
Meu lado francês, que tantas vezes se envergonha de uma França que cometeu imensos crimes ao longo de sua história, que causou a morte de mais de um milhão de argelinos, que torturou e matou crianças de vários paises árabes, que comteu crimes contra a própria humanidade, que dizimou uma parte da Indochina, e que reprimiu com tiros , em 1961, uma manifestação pela dignidade dos argelinos em Paris, meu lado francês que tantas vezes sentiu culpa pela origem materna aristocrática, hoje se emocionou com a outra França. Com uma batalha sem tiros, sem drones e sem tanques, em que os verdadeiros heróis foram os guerreiros filhos e netos de refugiados.

Emocionei-me com a batalha épica protagonizada pelos filhos daqueles refugiados, de mulheres que um dia fugiram da morte , que um dia sonharam que seus filhos pudessem crescer longe das balas e das guerras alimentadas pelos europeus na África. Emocionei-me com cada gesto, cada lágrima, e palavra dita pelos franceses ao Mbappé.

A grande vitoriosa desse torneio não é a França de Marine Le Pen, racista, retrógrada, apodrecida e xenófoba, mas a França que conheço bem, e onde estarei de novo esse ano, a França de meus amigos que acolhem, que ajudam e que, como eu, dão voz às crianças e mulheres refugiadas.

As grandes vitoriosas dessa Copa de 2018 são a Rússia, anfitriã maravilhosa e capaz de diluir em poucas semanas um milhão de estereótipos que alimentam o ódio contra ela, e a diversidade religiosa e racial e a minha esperança de paz.

Os grandes derrotados de 2018 são o neonazismo que renasce na Croácia, o fascismo de alguns líderes italianos e o neofascismo de bolsonaros no Brasil.

A grande vitoriosa desse torneio não é a França de Marine Le Pen, racista, retrógrada, apodrecida e xenófoba, mas a França que conheço bem, e onde estarei de novo esse ano, a França de meus amigos que acolhem, que ajudam e que, como eu , dão voz às crianças e mulheres refugiadas.

Os grandes derrotados são os fabricantes de ódio, de armas e de conflitos mundiais.

Como mulher, como brasileira que é fruto dessa mistura inusitada entre franceses e árabes, alguém que carrega em seu DNA todas as angústias e paradoxos da relação entre a Europa e o Oriente Médio, mas que também carrega em si a esperança de que a paz vença no segundo tempo de alguma forma, ouço meu coração hoje sussurrar: - Nós vencemos!

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